Da tirania do pequeno Renan.

Se você perguntar como era o pequeno Renan para qualquer pessoa que o conheceu, só receberá elogios. Uma figura, um carisma só, adorado por todos, fofo, ninguém resistia ao seu charme, um filho perfeito e garoto educado. O pequeno Renan que eu conheço tinha pouca consciência das normas sociais, uma falta de timidez cabulosa, e a coragem de expôr sua originalidade, certo de que ninguém ousaria desgostar dele.

O mesmo não pode ser dito do Renan de hoje. Nem o que eu ou os outros dizemos dele. Não sei se a transformação foi para melhor ou pior. Talvez essas características tão adoráveis em uma criança fossem a fórmula para um indivíduo insuportável; ou talvez a vida tenha me esmagado na máquina de fazer adultos que os pequenos tanto temem. Ainda não sei. Se consigo caracterizar bem o Renan do passado, não consigo fazer o mesmo com o Renan de hoje. Nem com aqueles que vieram uns anos atrás. Quão mais próximo, mais difuso. A única certeza que tenho sobre mim hoje é a ausência que jamais pensei que me agarraria.

Ela é coisa nova. E é aterrorizante.

Quando criança eu sabia claramente que seria o monge com canto gregoriano mais celebrado do mosteiro de São Bento — quem sabe até com apresentações no Vaticano — , assim como soube a solução perfeita para consertar o mundo e o método de despotismo esclarecido necessário para aplicá-la. Eu soube que tinha o planeta aos meus pés, eu sempre soube o que viria pela frente porque era mestre em criar narrativas. Menos para os personagens do papel, talvez, do que para o personagem que sou.

Essa solidez e esse otimismo foram rachando aos poucos. Meu interesse por dramaturgia não foi por acaso. Conforme nós crescemos, precisamos nos comprometer com as narrativas que escolhemos nos contar. Precisamos de motivações para seguir um caminho, precisamos dar provas dele, precisamos que o mundo veja a estrutura de nossas vidas equanto os alimentamos com as previsões de clímaxes gloriosos. Nós nos realizamos nos olhos dos outros. E foi aí que eu me ferrei. Meus olhos viram filmes, peças, leram livros, se aguçando para os defeitos daqueles que também contavam histórias. Estudei seus erros e suas glórias, sem notar a dormência aterrorizante que me tomava. Se eu coseguia enxergar a fragilidade de tantas narrativas, como é que os outros não enxergariam as fragilidades das minhas? Pior: como é que não veriam a farsa que era a grande narrativa que pretendia contar com minha vida? O estudo dramático aguçou minha crítica, me deu habilidade para identificar pontos frágeis, e me inflou a vontade de fazer algo que valha a pena — levando à grande pergunta: o que vale a pena, afinal?

No processo automático e megalomaníaco de alimentação da minha grande narrativa, uma que o pequeno Renan aprovaria e, portanto, todas as outras pessoas também, percebi o vão entre a realidade e a expectativa. Muitos vãos, na verdade. Entre realidade e expectativa, entre desejo real e pretexto, entre o pragmatismo do mundo e devaneios da idealização. É o vão que me pergunta o que vale a pena? com a temida gravidade plutônica, urânica e saturnina das grandes questões. Não sei ao certo se já pulei o vão, se ainda me aproximo, ou se estou na beirada; mas sei que olhei para dentro dele e enxerguei as dúvidas que me esvaziaram.

É verdade que o jovem Renan era mais carismático, mais extrovertido, mais palatável do que eu. Mas o jovem Renan era automático, carente, autocentrado, e arrogante. Fácil aceitar isso, especialmente em uma criança. Fácil esconder isso, e mesmo fazer com que os outros amem esses traços, eu sei por experiência. É fácil, com a medida certa de vontade e uma dose de sorrisos e açúcar. Eu acho o pequeno Renan uma pessoa terrível, mas todos os outros pensam que é maravilhoso. Às vezes ainda sugerem discretamente “o que aconteceu no meio do caminho?”.

Se eu era ótima companhia para os demais, não o era para mim mesmo. Antes eu sabia minha narrativa. Hoje consigo ver seus buracos. Suas motivações esdrúxulas, sua incoerência estrutural, seu insuportável lugar comum. As certezas daquela historinha não tem mais força para mim. Elas se foram, e levaram consigo a força motriz que existe em nossos espíritos e nos leva a perseguir e montar nossas narrativas. Nossos objetivos. Nossos planos de carreira. Nosso self-branding. Parar de caminhar depois de uma longa trilha em direção a um destino, sem chegar nele e já sem a vontade de o atingir é desnorteante e um pouco assustador. É bem assustador, especialmente hoje. Mas é também a oportunidade de mudar a rota e, de acordo com um dos manuais de roteiro, o estado de marasmo e abertura às possibilidades ideal para o começo de uma trama revolucionária.

Quem sabe não seja a hora de começar as lições de canto gregoriano?

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