O navio todo apagou, bem no meio da festa.
— Puta merda, são os nazistas.
— Os nazistas, são os nazistas.
— Tá doido? Eles estão lá na Europa. Você tá surtando.
Roberto agarrou um comissário que passava ligeiramente apreensivo.
- Menino, por que nós paramos?
- Sssshh, são os nazistas, senhor. Vamos nos manter quietos e calmos até que o submarino deles passe.
- O submarino? — ele sussurrava agora.
- Isso, senhor. A menor atividade pode nos denunciar.
- E nós vamos ter que ficar parados aqui até quando? Até eles nos matarem?
- Olha senhor, com sorte isso não vai acontecer. Com licença — e saiu consideravelmente mais apreensivo.
- Viu, eu disse que eram os nazistas. Vamos fugir.
- Como assim fugir? A menor atividade pode nos denunciar, o moçinho disse. Fica quieto, calmo, que isso passa.
- Não, não, não. Não tem como ficar quieto. Eles são muito mais avançados do que nós. Apagar as luzes e parar o navio não vai adiantar nada.
E uma bela mulher, ainda alegre naquele breu, se aproximou deles:
- Tão inconvenientes esses nazistas, a festa estava ótima. Vamos ter que compensar o tempo perdido quando forem embora — e, notando o suor que começava a brotar na testa de Roberto, torceu o nariz — Que houve? Está com medo? — e virando-se para o outro, Carlos, disse: — Que tem ele?
Roberto grunhiu e saiu do salão para o convés sem dispensar atenções a ela; seguido por seu amigo que mal teve tempo de se desculpar antes de alcançá-lo. Fincou as mãos nos limites de sua prisão flutuante, agora um pouco trêmulo além de suado:
- Preciso sair daqui — disse mais para si do que para qualquer outra pessoa.
- Estou falando sério. O Rio está logo ali, ó. Se pegarmos um bote salva-vidas, e remarmos por um tempinho, nós chegaremos sãos e salvos.
- Pssshh, os nazistas vão te ouvir.
- Logo ali nada. O tempinho que vamos ter que remar vai ser a noite inteira. Talvez o dia também. Isso se não formos pegos por uma corrente ou alguma coisa dessas coisas marítimas que fazem a gente se perder.
- Não quero saber. Prefiro virar náufrago a notícia de jornal. Vou pegar um bote, se não quiser vir comigo fique aí nessa armadilha.
- Pera aí, você não pode me deixar aqui sozinho. Eu não conheço ninguém. Você me obrigou a vir, estou te fazendo um favor. Não pode ir me abandonando assim, não é justo.
- Desculpe amigo, as circunstâncias mudam — e saiu em uma passada rápida pelo convés. Carlos não teve outra opção que não segui-lo, ainda atordoado, mais pela descortesia que pela paranóia:
- Volta aqui Roberto, eu não vou deixar você fugir. É mais provável morrer no mar do que pelos nazistas, fica quieto e…
- Você, moço! — Roberto avançou para um dos funcionários do navio, virando-o pelo ombro e, ao fazê-lo, notando que se tratava daquele mesmo comissário de pouco antes, olhando-o com uma expressão aflita:
- Pois não, senhor. O que deseja agora?
- Não escute ele — Carlos cortou — vamos voltar para o salão e esperar que o submarino passe.
- Pára, eu vou escapar desse navio — Roberto exaltou-se em um sussurro desesperado — preciso de um bote salva-vidas.
- Desculpe, mas eu não tenho permissão para
- Isso é o suficiente? — e sacou uma penca de notas altas da carteira.
Pouco depois estavam os três prontos para embarcar no bote. Ou ao menos um deles. Roberto subiu no barquinho de madeira clara, já visivelmente mais aliviado.
- Agora sim. Carlos vai vir comigo, ou fica no navio, amigo?
- Tem certeza que não prefere esperar?
- Eu, ou o navio? Estou partindo.
Carlos bufou e entrou no bote sacolejante.
- Pronto — Roberto comemorou satisfeito — pode nos baixar, menino. E boa sorte com os nazistas.
Mas o funcionário não se moveu.
- Eu… Eu posso ir com você, senhor?
- Não acredito… — Carlos praguejou.
- Vou ter meu suborno reembolsado? — Roberto indagou seriamente.
- Hum… Que se dane, venha logo conosco — e o garoto, alegre, se juntou aos dois, baixando o bote até o mar — o que são alguns trocados para vencer os nazistas afinal de contas, não é?
Assim os três — dois felizes nos remos e um emburrado no meio — dirigiram-se em direção ao Rio de Janeiro, mirando a entrada da Baía de Guanabara como a porta de entrada para a salvação. Uma mais esperada a cada segundo, dado o terror que o mar negro da noite e suas ondas brutas inspiravam na fuga; sem contar a ameaça velada e misteriosa dos nazistas que rodavam por ali.
A previsão de Carlos quanto a demora para chegar à cidade mostrava-se mais pessimista a cada metro conquistado na trajetória. As correntes que lhes poderiam ser mortais estavam bem-humoradas naquela noite, e, por elas, o trio chegaria em terra firme bem antes do amanhecer. Uma pena que o destino deles não se encontrasse em seus dedos oceânicos, mas sim nos metálicos daquela estrutura que emergiu das águas em aterradora discrição. Emergia por baixo do bote, interceptando-o em surpresa tão grande que os homens só conseguiram se pronunciar quando figuras humanas brotaram de dentro do submarino.
- Puta merda, são os nazistas!
- Roberto, olha a boca! — agora Carlos não se importava mais de berrar — vamos conversar. Eles não podem querer nos fazer mal, não somos uma ameaça.
- E nem precisamos. Eles são monstros insensíveis que não se importam com justificativas, Carlos. E, afinal, como vai querer conversar? Fala alemão desde quando?
- Cala a boca, garoto. Não iremos barganhar com os nazistas.
E, como se notando ser o objeto daquela discussão, um dos soldados uniformizados cuspiu uma série de palavras que, talvez pelo medo ou o barulho das ondas, soou ainda mais hostil que o alemão esperado. O soldado avançou, seus subordinados seguindo-o.
Vendo-se já nos limites de qualquer fuga com chance de vida, o pânico subiu à cabeça de Roberto:
- Por favor, parem, nós não vamos contar pra ninguém. Não temos ninguém pra contar. Não temos família, amigos, conhecidos — mas os soldados não paravam de avançar com seus olhares analíticos, sem qualquer indício de compaixão. Um deles, inclusive, parecia até zombar de seu desespero, movendo os lábios quase no mesmo momento em que cuspia sua prece, bem no ouvido daquele que parecia ser o chefe — não somos uma ameaça, amigos. Podem parar de avançar. Por favor. Parem. Olha, levem ele — e empurrou o jovem comissário — ele tem dinheiro!
- What the hell — foi a primeira fala teligível do nazista líder; logo acompanhada por aquelas que o outro dizia em seu ouvido:
- He’s trying to bargain with us, sir. The man is terrified.
E, pela segunda vez na noite, o alívio preencheu o espírito de Roberto:
- Graças ao Senhor — Carlos o acompanhou — americanos são amigos, né? E você fala um pouco de inglês. Diga que só estamos indo pra casa.
- Eu vou é pro teatro — comentou o menino; mas Roberto não deu atenção a nenhum dos dois. O êxtase era tanto que sentiu-se completamente à vontade para deixar o bote e ir até o soldado americano, passando-lhe um braço sobre os ombros:
- My friend! We are going home, O.K.? Can you, yooou — e fez um gesto abrangendo todos os estrangeiros, prosseguindo com mímicas pra ilustrar sua fala — give us a ride to Rio? Ali, Rio, O.K.? Nóós podemos fazer um barbecue in my house. Barbecue, in my house. What do you say?
- A ride? — o líder repetiu com um sorrisinho de canto de boca.
- Yeah, O.K.. A ride to the no-ones. Get ’em boys.
- Thank you! Thank you, fella! Vamos Carlos, estaremos em terra antes que esse menino possa pensar em torrar meu dinheiro.
Os três riram abobalhados enquanto eram escoltados para dentro do submarino. A máquina submergiu no mesmo silêncio com o qual aparecera. Roberto, Carlos, e aquele garoto nunca mais foram vistos. Mas não é que o bote chegou na Urca pela manhã?
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