Eu tenho 20 e poucos anos, mas me desculpe a autora do texto, eu já tenho maturidade pra entender…
Erick Ferraz
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Falta maturidade no texto original, e como não poderia faltar? Maturidade vem de maturar, de amadurecer, e só se amadurece com o tempo. Lendo esse texto eu tenho a sensação que a geração atual se acredita a grande transformadora, que chegou pra mudar o planeta. E claro que deve pensar assim. Ora, toda geração é transformadora, e toda geração chega para mudar o mundo. Algumas com mais sucesso, outras menos. O problema é que é muito difícil sair da caixa — perceber-se olhando de fora. Felizmente, há o tempo, e com ele, o amadurecimento. Não é necessário contestar as assertivas; basta simplesmente esperar o avançar cronológico e as próprias contradições que surgirão no próprio ato de viver a vida. Toda essa rebeldia, que houve também na minha geração, e na anterior, e na outra, e na outra (por diferentes razões), cederá lugar no futuro. Para a maioria, pelo menos. Toda essa energia opositora encontrará concílio no fracasso — porque sempre há fracasso. Explicito aqui, o pessoal, porque ele virá, em algum prisma das suas vidas — e vocês se entenderão exatamente no lugar daquelas pessoas que não são perfeitas, que erram, que tem dificuldades em se adaptar, daquelas pessoas que vocês consideram “presença negativa” hoje. A geração atual considera-se independente, e é paradoxalmente uma das mais dependentes. Entretanto, ela não se percebe assim, por não ter referências. E se os seus pais tivessem largado vocês na rua quando eram jovens, porque era muito sacrifício ter que cuidar de um fardo? Um filho é uma alegria, mas é também um fardo. Muitos sacrifícios são feitos até que ele se torne um adulto. Um pai, mais do que todo mundo, sabe como se sofre lutando e torcendo pelo melhor de suas crias. E se eles os abandonassem antes que vocês estivessem prontos para lutar pelas suas vidas? “Mas isso é impensável, um pai não abandona o filho.” Hoje em dia. Houve outras gerações em que essa proteção não era garantida. E quando um filho se acredita super-herói, e pisa na família — esta que aí sim tem a referência da possibilidade de ser abandonada, como se fazia antigamente, soa como ingratidão para essa família. Guardadas as proporções, fica fácil entender porque essa geração é considerada ingrata, em sua maioria. Muitos aspectos da vida hoje em dia são conquistas de gerações anteriores, e são dados como garantido. Nada na vida é garantido. Enquanto a nova geração, dentro de seu entendimento, buscará e lutará por novos comportamentos que se fazem urgentes, outros, desvalorizados, cairão no esquecimento, e se perderão. Uma vindoura geração, na falta disso, condenará aos Y por não ter valorizado aquela causa. Isso é fluidez, é a mudança, é entender que nunca se chegará a perfeição, porque ela não existe. Assim como querer mecanizar os sentimentos e os relacionamentos, como se a natureza dos mesmos não mudasse com o passar dos anos, seja pelas transformações do mundo, seja pela transformações que sofremos nós mesmos. Aí eu fico pensando em pessoas que pularam fora desses modos de vida infelizes, há três, quatro, cinco décadas atrás, que foram comprar cigarro na esquina e nunca mais voltaram para casa; penso nessa tal liberdade que se acredita ter hoje “pela primeira vez na História”; e sorrio. Lembro de uma frase que li numa revista francesa há uma década atrás: “a eles, o futuro”.

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