Pai : paternidade e geração placenta.


Gael em suas 34 semanas.

Abrindo espaço para a possibilidade metafísica — à qual tantos se socorrem — de comunicar-me com quem agora existe apenas em minha memória, genética e epigenética, eu gostaria de compartilhar contigo um pouco sobre um importante movimento de ruptura atual e sobre o meu forte primeiro contato com a paternidade (isso mesmo, seu neto está para nascer… e seu filho simplesmente prestes a transbordar).

A tua história é um prólogo importante para a minha e acredito que nossas razões fogem ao óbvio. A tua perda paterna aos 15 anos de idade — tão repetidamente compartilhada comigo, ainda criança, em teus momentos de embriaguez e forte conflito. A tua segunda e talvez mais severa perda, ainda na casa dos 20… Quando aquele acidente levou tua jovem esposa e te deixou uma criança de 1 ano (eu) nos braços. Tua incapacidade de assumir o papel de pai — felizmente suportado pela tua (e, portanto, minha) mãe. A nossa desconexão como pai e filho e nossa reconexão em irmandade, bem no finzinho de nosso tempo. E tua morte tão precoce, aos 48 anos, causada pelo vício alcoólico que tua cultura aplaudia e aplaude até hoje. Tudo isso provocou uma séria ruptura. A linha lógica que traça o sentido da paternidade entre nossas três gerações se perdeu. Contudo, talvez num dos caminhos possíveis, a própria ausência de modelo tenha proporcionado a abertura para questionar e a liberdade para idealizar algo novo. Meio que na linha Nash.

“As aulas vão entorpecer a sua mente, destruir o potencial para a criatividade autentica.” John Nash

Imagino que um filme deva ter passado pela tua cabeça. Lembrando tudo que viveu e como foi indescritível ter descoberto que seria pai. Aquela forte energia. Todas aquelas preocupações. Toda aquela expectativa. Toda aquela cobrança. A globalização do consumo dos anos oitenta e noventa, fazendo com que um sertanejo do interior de Pernambuco almejasse o modelo norte americano de sucesso: família, um bom emprego, uma casinha ajeitada e um carrinho estacionado na entrada.

É, pai… as cobranças seguem existindo, mas agora o nível de complexidade ganhou corpo. Nosso mundo não cabe mais na TV. A questão financeira segue sendo importante, como sempre será, mas sinceramente te digo: ah se o problema fosse apenas dinheiro…

Hoje enfrentamos um enorme hiato. Essa tal era da informação nos pegou de jeito. Aprendemos coisas demais, mais do que podemos dar conta. Descobrimos o quanto viemos errando— nós, juvenil humanidade — porém, ainda parecemos atônitos, perplexos diante de tão brutal desconexão com nós mesmos, como espécie, e com nossa casa, nosso planeta. Em grande maioria, ainda incapazes de reagir, sabemos, mas não fazemos. E isso gera uma angústia, por vezes, insustentável.

Nos últimos séculos os cientistas deduziram que diferente dos demais animais, nós somos os únicos que temos consciência de estarmos vivos e por isso não podemos apenas sair por aí vivendo (isso me traz um leve sorriso de canto de boca), e desde então vagamos nessa “vida” em busca de propósito, sempre ansiosos para que algum religioso, ou economista, nos diga o que devemos buscar — o que não tem nos trazido bons resultados.

Acredito que aos poucos estamos descobrindo que é justamente na simplicidade, no olhar atento aos outros seres, que podemos descobrir essa resposta. Toda e qualquer forma de instinto que existe nesse planeta, existe para fortalecer e perpetuar sua espécie, em harmonia com o seu ecossistema. Acredito que diferente de nós, todas as demais espécies saibam exatamente por que estão aqui e o que devem fazer: evoluir.


A geração placenta

A agricultura sintrópica de Ernst Gotsch traz um conceito que chamou bastante a minha atenção. O processo de recuperação de solos é realizado através de sucessões de tipos vegetais plantados com objetivo de equilibrar os nutrientes e as condições do solo. Durante esse processo, alguns vegetais são plantados para que haja a formação de uma “placenta natural”, que proporcionará as condições necessárias para o desenvolvimento da futura agrofloresta.

Assim nasceu a ideia de correlação entre os termos e entre as lógicas. Nada me aprece descrever melhor o movimento de ruptura que vejo nos dias de hoje, com relação a paternidade e a maternidade — faço questão de destacar ambos, pra que não haja ambiguidade sobre amplitude de minha fala . Ainda somos poucos em proporção, mas nossos atos são gigantescos em nossa individualidade e imensuráveis em seus resultados. A ciência do início da vida, esse maravilhoso conhecimento que nos é apresentado hoje, pela tua geração, nos coloca na vanguarda da consciência a respeito das transformações necessárias para superar o abismo em que nos encontramos e proporcionar às próximas gerações o salto evolutivo capaz de salvar-nos de nós mesmos.

O caminho é longo, mas o trabalho já começou. Estamos rompendo com a negligência estúpida que a medicina industrial do século passado impôs sob nossas mulheres e crianças no momento do parto. Com a ajuda de profissionais da saúde despertos, doulas, parteiras e etc., estamos realizando um maravilhoso esforço de humanização para receber com inteligência, àqueles que são o que de mais importante faremos em toda a vida. Através de batalhas e grandes conquistas das mulheres, estamos devolvendo a elas o instinto de parir, seu devido protagonismo durante o período gestacional e empoderando a maternidade. Estamos nos reconectando — e começando a dar a devida importância — ao ato de gerar uma vida, no cuidado e preocupação com o ambiente, alimentação e energia que é transmitida para nossos filhos em construção. Não há mais dúvidas de que este é o primeiro passo para nosso renascimento, e tudo isso é apenas um ensaio do que vem a ser a nova concepção de paternidade.

Enquanto tantos analisam, aí afora, os millennials como uma geração de impasses e focam em sua relação, tendencialmente conflituosa, com o mercado de trabalho “tradicional”, tendo o hiato de conhecimento/ação de que mencionei, como plano de fundo, talvez seja um bom momento para aquietarmos nosso espírito e direcionarmos nossa luta para algo mais íntimo: transformarmo-nos em terra fértil para que nossos filhos possam crescer e se desenvolver com força e sabedoria, me parece um excelente começo.


Ser pai

Lembra daquela estória de trabalhar duro e colocar comida na mesa? Pronto, problema é quando nos damos conta de que isso é apenas o básico do básico. Difícil mesmo é “colocar-se” na mesa, no chão da sala no meio dos brinquedos, no quintal, debruçar-se sob os livros, mexer na terra e ensinar biologia, física, química, matemática, línguas, sociologia, filosofia, ética, cuidado, consenso. Participar ativamente de todas as etapas de aprendizado e desenvolvimento dos nossos filhos, dedicando o máximo possível do nosso tempo a eles, e ainda fazer tudo isso com o dever compartilhado de colocar comida na mesa.

Não existe nada mais importante do que a nossa presença.

E é aí que começa todo o entrechoque geracional: como pagar colégio caro, material escolar, plano de saúde, morar num bom apartamento, numa boa área da cidade, ter um carro confortável e seguro, pagar a natação, o inglês, a babá e todos aqueles presentes que sempre precisamos dar para compensar a nossa ausência?

Se até aqui, você ainda está prestando atenção no que estou falando, já deve ter uma boa pista da resposta: economizando todo o tempo que nós gastaríamos para juntar dinheiro o suficiente para tudo isso e “fazendo nós mesmos” boa parte dessas coisas. Desescolarização. Alimentação natural saudável. Vida em comunidade em contato com a natureza e longe dos grandes centros — para, além de tudo isso, conseguir um custo de vida mais barato. Jogar junto. Plantar junto. Criar junto. Cuidar junto. Educar de forma sistêmica! Esse me parece um dos caminhos possíveis.

O grande desafio é nos desvencilharmos desse modelo de felicidade “by consumo”, que nos foi vendido de forma torpe, por algo que se convencionou chamar de ciência (economia) — afinal, matematicamente dispomos de recursos finitos e essa conta do “desenvolvimento” não fecha— e encontrar o equilíbrio entre “tempo para o que importa” e “renda para o necessário”. É difícil até de imaginar, não é? Pois é, como falei no começo: ah se fosse apenas dinheiro…

“O que você não sabe por inteiro
É como ganhar dinheiro,
Mas isso é fácil, você não vai parar…” Raul Seixas

E os percalços não param por aí. Vivemos numa sociedade de contradições onde, de um lado, uns são tidos como heróis porque “ajudam” a esposa a trocar uma fralda, enquanto de outro, os que verdadeiramente abraçam o desafio e se propõem a estar presentes são mal vistos pelo cargo que não possuem no emprego que não querem. A recompensa social pelo bem incalculável que nos propomos a fazer é tornar-nos párias. Mas não importa. Nossos filhos serão a sociedade e é assim que ela vai mudar.

O conhecimento está disponível. Nunca estivemos tão conectados. Temos todas as ferramentas de que precisamos para nos lançarmos nesse desafio, cada um a seu modo e dentro de suas capacidades. O caminho é desconhecido e o êxito incerto, mas já perdemos tempo demais. O Homem precisa voltar à terra e reconectar-se com sua essência. Muito já vêm sendo feito por vanguardistas que nos precederam, e pela vanguarda co-geracional. Nosso dever, a cima de tudo, é de construirmos essa base sólida de preparação para um novo momento de nossa história. O talento natural que floresce nas crianças de hoje em dia, com uma carga de inteligência sempre a nossa frente, será potencializado pelo devido cuidado com a sua construção e desenvolvimento — desde o útero. Seremos essa placenta. E espero que, enfim, possamos dar passagem à tão aguardada geração da luz!

Torce por nós, pai!


Texto escrito em meados de outubro de 2016 e pontapé inicial para uma série sobre minhas impressões a cerca da paternidade. Sem prazos, ou pretensões, apenas uma proposta de reflexão compartilhada.

Renan Costa.