A crônica de uma tragédia: porque eleger Lasier Martins foi um grave equívoco
Os ponteiros do relógio já ultrapassam a marca das nove horas da noite, em uma típica noite de Primavera em Porto Alegre. A Justiça Eleitoral crava um total de 99,95% das urnas apuradas no estado do Rio Grande do Sul. Lasier Martins, advogado e jornalista, é o senador da república eleito pelo estado. Apesar do clima agradável ao final do dia, esse é um Domingo a ser lamentado por aqueles comprometidos com um projeto coletivo para o futuro do estado.
Um mergulho nem tão profundo em sua trajetória é o suficiente para trazer à tona fatos importantes sobre quem é, de fato, o candidato do PDT. Lasier Martins é formado em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, trabalhou na editoria de esportes da Rádio Guaíba e paralelamente exerceu a função de advogado da multinacional fumageira Souza Cruz. Seu rompimento com o antigo Grupo Caldas Júnior (Guaíba e Correio do Povo) foi bastante conturbado, marcado por litígio e disputas judiciais. Tão significativas a ponto de Renato Ribeiro, último controlador da Caldas Júnior antes da compra pela Record, assinar um editorial inteiro na capa do Correio do Povo contra Lasier, expondo a falta de ética com que agiu o advogado. O mesmo jornal é personagem de outro episódio polêmico na vida de Lasier. Na edição de 13 de Abril de 1966, ele é oficializado como 2º Vice Presidente do Diretório da Mocidade Regional da ARENA, o partido ultraconservador que buscava legitimar teatralmente os governos militares ditatoriais, instituídos desde o golpe de 1964. Um ano antes, em 1965, o Brasil havia sofrido um duro trauma político: o Ato Institucional nº 2, que decretava o fim do pluripartidarismo e o consequente arrebatamento total da oposição, entre muitos outros desvairos despotistas. O cenário político instaurado no país expunha uma garantia: quem estava na ARENA sabia exatamente o que estava fazendo.
Por 27 anos, Lasier Martins trabalhou para o Grupo RBS e foi comentarista na bancada do Jornal do Almoço. Em suas intervenções, o jornalista representou tudo que há de mais atrasado e conservador no debate político regional. Valendo-se de uma neutralidade dissimulada, seus principais alvos eram as pautas ligadas à justiça social. Sobravam críticas ferrenhas aos movimentos sociais e aos sindicatos. Os direitos humanos e a agenda progressista foram constantemente massacradas, bem como a razão e a coerência, virtudes pouquíssimas vezes presentes em seus discursos recheados de falso moralismo e corporativismo. A postura do comunicador nem mesmo causava estranheza, afinal ele havia sido escolhido à dedo como um porta-voz da opinião de seus empregadores, representantes de um grupo social que trabalha incessantemente pela blindagem e manutenção de seus privilégios.
A candidatura de Lasier Martins é fruto de uma já conhecida relação tácita entre o PDT gaúcho e o Grupo RBS, que vem colhendo bons frutos com José Fortunati na Prefeitura de Porto Alegre. Entretanto, foi no governo de Yeda Crussius, uma ex-funcionária da empresa, que despontaram lideranças pedetistas como Vieira da Cunha, trazendo propostas para condução do Estado bastante próximas ao que propunham os editoriais do jornal Zero Hora. A aparente incoerência em filiar Lasier Martins ao PDT, em razão da distância ideológica entre o que ele profetizava na tribuna do Jornal do Almoço e o que está enraizado nas bases doutrinárias do Partido Democrático Trabalhista, não foi suficiente para impedir a união das partes interessadas. A candidatura ao governo do RS lançada por Vieira da Cunha viria a ser um fracasso eleitoral, mas foi de máxima conveniência para a campanha de Lasier. O jornalista desprendeu-se de eventuais compromissos com projetos de governo antagônicos a sua agenda e teve liberdade para moldar seu plano político.
Para lançar Lasier, o PDT rompeu uma promissora aliança com a base governista do Estado. A parceira entre petistas e pedetistas arraigou benefícios estratégicos para ambas as legendas, além de promover projetos comprometidos com o trabalhismo e com o desenvolvimento do estado. Porém, o poder de barganha na candidatura de Lasier era tamanho que o partido declarou-se regionalmente neutro na corrida presidencial, contrariando decisão da cúpula nacional, além de abrir mão de sua composição na base aliada. Dessa movimentação nasceu a candidatura de Lasier Martins, travestida de trabalhismo, evocando a figura mais representativa que a história gaúcha conheceu no tema: Leonel Brizola.

De fato, para muitos foi uma missão quase impossível digerir a campanha de Lasier Martins sendo atrelada ao brizolismo. Leonel de Moura Brizola entrou para a história do Brasil ao conduzir a Campanha da Legalidade, movimento popular de resistência contra forças golpistas militares que tentavam impedir a posse de João Goulart após a renúncia de Jânio Quadros. Durante a ditadura militar, Brizola foi cassado e teve de exilar-se no Uruguai, passando ainda por EUA e Portugal. Tornou-se uma figura bastante popular no Brasil, com ampla trajetória na política nacional, marcada pelos constantes embates com as Organizações Globo. Sua herança vive ainda hoje, por tudo que representou em sua luta por democracia e justiça social. Lasier passou anos destilando seu ódio aos governos Lula e Dilma na TV aberta, ambos reconhecidos pelos expressivos avanços na inclusão e na qualidade de vida das classes menos favorecidas, de onde majoritariamente provêm os trabalhadores para os quais ele se reporta em sua publicidade de campanha. Em meio às muitas contradições associadas a sua imagem “trabalhista”, Lasier Martins mostrou-se incapaz de conduzir um projeto para benefício coletivo, contemplando avanços sociais e desenvolvimento sustentável. Ele provou inúmeras vezes que não mantém nenhuma sinergia com a realidade dos fatos, ofuscado por uma cegueira que emana de sua fúria ideológica. Dedicou sua vida profissional a condenar os políticos e a máquina pública, para agora tornar-se parte da estrutura que tanto desmoralizou. Sua candidatura é meramente um tórpido projeto pessoal, tão vazia quanto sua visão de mundo.
Em uma rápida análise pós-eleição, é possível afirmar com certa segurança que grande parte dos votos que o candidato do PDT recebeu são produto de um dos maiores cânceres políticos que o Rio Grande do Sul vive desde a redemocratização do país: o maniqueísmo “PT versus Anti-PT”. A corrente contrária tem crescido de tal forma que seus maiores promotores já não são mais capazes de avaliar criticamente em quem estão votando. Alucinados pelo desejo doentio de “não deixar que o PT se eleja”, apostarão suas fichas no primeiro candidato desprovido de lucidez que traçar prognósticos associando o projeto intervencionista social do governo atual a um futuro semelhante à ditadura da Coréia do Norte. Esse festival de insensatez é patrocinado pelos maiores interessados em barrar os avanços sociais: o estamento mais alto de nossa sociedade, aqueles que se sentem profundamente incomodados com pobres viajando em aviões e negros ingressando em universidades. Esse restrito grupo utiliza seus vastos e poderosos tentáculos para contaminar outras classes, mais volumosas e influenciáveis, disseminando a ideia de que a corrupção e as demais mazelas do Brasil estão associadas exclusivamente aos grupos que capitaneiam a luta pela redução da desigualdade. Ignoram o fato de que a corrupção está presente em todos os segmentos da sociedade brasileira desde que Dom João atravessou o Atlântico, e que simplesmente alterar a orientação política do líder do Executivo não será suficiente para extinguir os problemas. Abusam das falácias e dos sofismas e jogam contra os números para martelar uma realidade mentirosa. Apesar de tudo isso, seus representantes no Rio Grande do Sul foram inegavelmente bem-sucedidos em sua última missão. Lasier Martins é o senador eleito no pleito de 2014.
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*Renan Dedavid é estudante de Engenharia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul