A arte de sujar os ouvidos

Críticos de música explicam o que fazem, onde vivem e o que comem.

Por Renan Goulart
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Amanda Nogueira

Jotabê Medeiros

“NÃO SOU UM GUIA DE CONSUMO”, alerta Jotabê Medeiros, crítico de música, ao falar sobre sua profissão. Ele escreve sobre o cenário musical há quase 30 anos, desde quando resenhou o álbum The Wall, do Pink Floyd, para a revista SomTrês. Eram tempos de faculdade e, na esperança de um primeiro emprego e daquele bem-vindo dinheirinho extra, enviou o texto para Maurício Kubrusly, então editor da publicação.

The Wall é esse disco ao lado, direto da coleção do Dito. Só para o caso de você viajar em outros sons e desconhecer essa magnífica obra de arte.

Muito antes dele, nos anos 1930, Mário de Andrade sagrou-se o primeiro crítico musical do país ao manter uma coluna no extinto Diário de S. Paulo. Hoje, os 160 artigos que publicou são um verdadeiro registro do valor e da importância social e política dos compositores de sua época. Para Jotabê, essa é a função que a crítica musical deve exercer, muito mais do que sugerir ao leitor o que ele deve ouvir:

“Eu tenho a pretensão de que o texto possa permanecer, que tenha uma função reveladora de sua circunstância: em que período foi feito, como se pensava nessa época e qual era a ideia que as pessoas tinham de arte.” — JOTABÊ MEDEIROS

No frigir dos ovos, esse trabalho não se resume a falar sobre música. Trata-se também de contribuir para a construção de um panorama sobre o momento de determinada sociedade, o que pode servir posteriormente como material de consulta histórica.

Alex Antunes

Música e Jornalismo, livro que reúne todos os artigos escritos por Mário de Andrade, é, portanto, fundamental para quem quiser entender a sociedade brasileira dos anos 1930. Alex Antunes, editor da Bizz no final da década de 1980, período em que a crítica musical ganhou força no Brasil, concorda:

“Fazer uma crítica é esboçar um retrato da sociedade porque envolve questões antropológicas, comportamentais e conhecimentos da história da música e da cultura. É um exercício muito interessante que tem a ver com a compreensão da cultura em geral e não com um conhecimento extremamente especializado em música.” — ALEX ANTUNES

O conceito de crítica, do grego krinein, em latim critica, em francês critique… Está anotando? Vai cair na prova. Do inglês review, do alemão kritik, do italiano critica e do espanhol crítica. É separar, decidir, julgar. Desconstruir e interpretar uma obra de arte, sendo o repertório de referências daquele que escreve seu mais importante aliado na missão. Preferências e gostos pessoais não podem interferir. Missão dada é missão cumprida?

Marcus Preto

Marcus Preto, cuja profissão nem preciso dizer qual é, não acha que os artigos publicados na imprensa atualmente podem ser considerados críticas:

“Crítica é o cara se debruçar sobre um negócio e falar profundamente sobre aquilo depois de conhecer toda a discografia do artista e ter ouvido o disco umas cinco ou seis vezes. A notícia chega hoje e você tem que publicar amanhã. Então, consigo escutar um disco no máximo duas vezes. Não é exatamente crítica, é mais um comentário com as primeiras impressões que aquele disco me causou.” — MARCUS PRETO

Ter referências é essencial para que se obtenha um texto de qualidade na correria do jornal diário, segundo Preto: “Quanto mais música o crítico tiver ouvido e estilos, conhecer, mais coisas o cara irá imprimir em seu texto. Senão, ele vai ouvir aquilo e não vai fazer sentido nenhum”.

Jotabê Medeiros concorda:

“Por exemplo, você vai resenhar o novo disco do Arctic Monkeys. É bom que tenha conhecido Syd Barret e os primórdios da música psicodélica inglesa, senão você vai achar que eles acabaram de inventar alguma coisa. Escrever sobre música, em qualquer veículo, exige uma formação complexa que não tem escola.” — JOTABÊ MEDEIROS
Referências e preciosidades

Por outro lado, Pablo Miyazawa, que foi editor-chefe da Rolling Stone de 2006 a 2014, procura analisar discos como produtos que os artistas colocam nas lojas e a intenção por trás de cada obra.

“Não conheço muita gente que saiba transmitir, em palavras, a emoção que se tem ao escutar uma música. É muito complicado porque cada um escuta música de uma maneira. Você pode falar que aquela uma te emociona ou dá vontade de dançar. Isso sim pode ser descrito.” — PABLO MIYAZAWA
Pablo Miyazawa

Assim como era Mário de Andrade, Miyazawa é músico. Para ser crítico, é preciso saber tocar algum instrumento? “Acho que, por saber tocar, tenho uma visão de análise diferenciada. Ajuda muito no entendimento, mas isso não quer dizer que uma pessoa que não toque esteja impedida de escrever sobre música”. A maioria dos jornalistas que ele conhece não sabe tocar nada. Caso de Jotabê, que não sabe tocar nem campainha e afirma conhecer gente que toca maravilhosamente bem, mas que não consegue escrever uma linha direito.

Miyazawa pensa que seria ótimo se todo mundo pudesse ter a habilidade de tocar violão. Isso faria com que todos entendessem sobre o que estão falando e, assim, a crítica e a cobertura jornalística seriam diferentes. “Não saber tocar não atrapalha, tanto que o pessoal consegue cumprir o trabalho, mas as pessoas só teriam a ganhar.”

Antes de ser jornalista, ele já era músico, mas nunca teve o sonho adolescente de trabalhar em uma conceituada revista de música. Sabe aquele filmão Quase Famosos?

Sem essa de ser bitolado

Miyazawa não se considera um jornalista de música. “Prefiro ser um jornalista sem ‘complemento’ porque assim estou aberto a outras oportunidades que possa vir a ter”, explica. Jotabê também gosta de poder seguir por outros caminhos, como o da política cultural:

“Você tem que estar atento a diversas áreas: a policial, a de política e muitas outras. O Jornalismo Cultural está inserido dentro disso, assim como Economia e Esportes. Vejo muitas pessoas parando de escrever sobre outros assuntos ao serem contratadas por cadernos de cultura. Escrevem apenas críticas, no esquema do ‘gosto’ ou ‘não gosto’. Como se a opinião deles fosse a coisa mais importante do mundo e, na verdade, opinião todo mundo tem.” — JOTABÊ MEDEIROS

Opinião de quem escreve sobre música tem que ser qualificada e bem estruturada. Ele continua:

“Tem que servir para revelar ao leitor que ali tem uma engrenagem, algo acontecendo. Por exemplo, não se coloca um show no Anhembi sem que haja um mercado de showbiz, um circuito de shows, agentes negociando, financiamento de público, Lei Rouanet, essas coisas.” — JOTABÊ MEDEIROS
Tá sentindo esse cheiro de poeira?

Uni duni tê, do grego krinein

A escolha dos assuntos publicados pelos veículos quase sempre é feita com base na compreensão do que o momento pede. É avaliar e entender o que é bom, relevante e essencial. No período em que esteve à frente da Rolling Stone, Miyazawa conta que recebiam centenas de discos por mês. “É impossível cobrir tudo, ainda mais com a limitação de espaço que o formato de revista nos impõe”.

Esse é um problema sentido, principalmente, pelos jornais, onde há briga por espaço. É o que revela Marcus Preto:

“Muitas coisas que acho legais, muitas mesmo, ficam de fora. Parece que as outras coisas foram ignoradas, mas é pelo contrário. A maior dificuldade para o jornalista é conseguir publicar matérias sobre artistas iniciantes. Você tem que provar que ele vai ser relevante, caso ainda não o seja” —MARCUS PRETO

Jotabê quase sempre escolhe sobre o que irá escrever, com exceção dos casos em que “os fatos são muito maiores do que a minha vontade, como um show do U2, por exemplo”. Nesse caso, trata-se de uma das maiores bandas do mundo, que possui a turnê mais lucrativa da história, e o evento precisa de cobertura. “Vou ter que ir para o local do show, ficar em porta de hotel, fazer plantão e tudo mais”, conta.

“É preciso impor e ter pautas não-óbvias. Se criarmos isso como hábito, dificilmente seremos massacrados pela agenda de cultura, que é bem ingrata” — JOTABÊ MEDEIROS

Ingrata?

Bota ingrata nisso!
Velharia e tecnologia

Novidades do museu

Uma nova relação com música surge com a migração da crítica para o meio eletrônico, tanto é que o disco como conhecíamos praticamente não existe mais. Quem está sendo relevante, então? Jotabê, diz aí!

“Acredito que os grandes embates ainda são travados nos jornais, mas existe um bom trabalho sendo feito em blogs e sites.” — JOTABÊ MEDEIROS

Alex Antunes, em partes, discorda:

“A indústria musical se desorganizou toda e os antigos críticos e veículos que eram levados a sério estão todos numa grande lástima. Não que não existam boas análises, mas isso já não está se expressando através de veículos usuais, onde não há espaço, nem dinheiro. A internet é o refúgio daqueles que escrevem sobre música, profissionais ou não.” — ALEX ANTUNES

Ok. Temos os ingredientes do bolo: falta de espaço, de tempo, de dinheiro. Sobra paixão pelas ondas sonoras. Será que precisamos mesmo dedicar nosso tempo a fazer críticas, quando há cada vez mais opções para todos os gostos e cada vez menos saco para aguentar a opinião alheia? Vai, Alex:

“Acho que, por isso, a crítica não tem a menor importância nesse momento. Boa parte das pessoas não tem todo o tempo e toda a disposição do mundo para ficar navegando em milhares de coisas, nem escolher as suas prediletas entre todas.
O que é relevante é indicado pelos novos filtros que surgem, segmentados por estilo ou faixa-etária. Não tem como reconquistar a credibilidade que os antigos tinham, então é bobagem insistir neles” — ALEX ANTUNES

No Brasil, uma referência foi a extinta revista Bizz, lançada em 1985, ano em que aconteceu a primeira edição do Rock In Rio.

Na época, com a redemocratização do país, assuntos ligados à cultura jovem começaram a receber mais atenção. Isso impulsionou a criação da publicação, que passou por várias fases e encerrou suas atividades em 2007, deixando uma lacuna no mercado editorial brasileiro. Vinte e cinco minutinhos para apreciar a história desse ícone brazuca:

Desde então, não houve mais nenhum título exclusivamente musical de largo alcance, a não ser as especializadas em heavy metal, como Roadie Crew e Rock Brigade. Existem também aquelas dedicadas ao aprendizado de instrumentos, caso da Guitar Player, que traz entrevistas com guitarristas e lições de técnica musical.

No período em que Antunes foi editor da Bizz, de 1987 a 1989, a estratégia adotada era de colocar artistas com viés comercial em suas capas e também reservar espaço para seções e matérias dedicadas a artistas “mais interessantes, mas que não necessariamente fossem do gosto de um público de massa”, como ele explica.

O fechamento definitivo da Bizz ocorreu em 2007, quando a revista mudou para um perfil mais rock clássico, em busca de manter-se financeiramente. “A aposta era que existia um público mais velho que tinha poder aquisitivo e que isso resolveria a ‘equação’ em termos de leitores e anunciantes, o que não deu certo”, conta Alex. Com vendagens ruins, a Editora Abril não se interessou em continuar com a publicação, cuja última edição foi lançada em Julho daquele ano. A BRAVO!, que possuía uma seção de música, foi pelo mesmo derradeiro caminho em 2013.

De um modo geral, o mercado de publicações de papel sofre com constantes baixas no número de vendas, que não sustentam uma revista por si só. Também são necessários anunciantes e estes não se interessam muito em estar em títulos de música. Miyazawa explica:

“De alguma forma, eles pensam que o leitor de uma revista de música só gosta de música, o que não é verdade. Ele também toma refrigerante ou gosta de carros. É por esse motivo que a Rolling Stone sempre se assumiu como uma revista de entretenimento e não de música, apenas. Atrapalharia, comercialmente falando, se assim fizéssemos. A revista não estaria onde está” — PABLO MIYAZAWA

Discussões sobre o futuro de impressos à parte, a falta de publicações especializadas em música pode ter vários culpados: pouco interesse dos anunciantes, a concorrência da internet e até mesmo a extinção das gravadoras. É nessa última opção que Jotabê aposta suas fichas:

“Não tem mais quem banque. Elas tinham dinheiro e bancavam, então, você vê que tem uma face que não é tão boa no seu desaparecimento. É parecido com a situação dos discos físicos. Por que vou investir em uma revista cujo lucro é pequeno? Por que alguém vai investir em um disco se não consegue vendê-lo?”
— JOTABÊ MEDEIROS

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Poeira Zine: revista com atitude de fanzine

Bento Araújo

Descontente com o mercado músico-editorial brasileiro, Bento Araújo arregaçou as mangas e, em 2003, criou a Poeira Zine. Publicada bimestralmente, com uma tiragem de 3 mil exemplares, trata-se de uma revista independente sobre rock clássico com atitude de fanzine.

“Eu tinha uma carência de ler coisas boas. Nas bancas havia apenas títulos que tratavam de estilos que não gosto muito. Então, a ideia que tive foi a de fazer uma revista que gostaria de ler.” — BENTO ARAÚJO

Além de reportagens especiais sobre bandas clássicas, também são publicadas matérias com artistas atuais, desde que elas sejam do agrado do jornalista. “Não gosto de comprar briga com fã, nada disso, então procuro aproveitar o espaço para falar somente coisas boas”, esclarece.

Exemplares da PoeiraZine #59 recém saídos do forno

Colaborador de veículos tradicionais da imprensa, Bento garante que nunca tomou prejuízo com a Poeira Zine. A revista sempre se pagou com anúncios e a venda dos exemplares, a R$ 10 cada, pela internet ou em pontos credenciados, como lojas de discos, instrumentos, sebos. Os anúncios veiculados são de lojas, shows e bandas independentes.

Apesar de já ter considerado veicular a publicação por meio de uma editora, ele não acredita que as vendas seriam satisfatórias por se tratar de algo restrito a um nicho:

“Se tivéssemos ido para as bancas, teríamos quebrado no segundo número. Será que uma revista com o Captain Beyond na capa venderia? Falar de psicodelia peruana só no esquema do Poeira mesmo”. — BENTO ARAÚJO