O mashup e o flanêur.

Mashup é uma obra que combina elementos de duas ou mais fontes, podendo ou não remeter às fontes originais. Essa obra é algo novo, não mera cópia das obras das quais se apropria. A criação de uma obra desse tipo é um exercício de recombinação, de montagem, presente desde antes das tecnologias digitais. A novidade é o alcance que essas obras ganham com o uso das tecnologias.

É esse mesmo alcance, dificilmente alcançado a partir do uso de tecnologias analógicas, que permite situações cômicas, como quando a cantora islandesa Björk tocou um mix contendo diversas músicas, enquanto discotecava em uma comemoração em Nova Iorque, dentre elas uma do cantor de funk brasileiro conhecido como MC Brinquedo. Uma cantora utilizando música popular em uma discoteca não teria nada de incomum, se o gênero e o estilo da música feita pela cantora não fossem tão diferentes do funk brasileiro. Essa situação inusitada repercutiu na internet e fez levou à criação de um mashup musical, misturando elementos de uma música da Björk com outros de uma música do MC Brinquedo. Nesse caso, a intenção da obra criada é remeter às obras originais,

Essas práticas são comuns, principalmente com o estágio atual do uso das tecnologias digitais.

Interessante salientar que remix e mashup não se cingem a processos técnicos/operacionais, uma vez que envolvem, em grande parte, a criatividade, isto é, processos criativos, de modo que as montagens podem ser feitas com base em sequenciação ou sobreposição das amostras sampleadas. Verifica-se, pois, a potencialização de significados, de acordo com a criatividade e o traço “autoral” nas versões derivadas daqueles que se propuserem a remixar ou montar em forma de remix (1)

Um dos usos do mashup antes das tecnologias digitais foi na cartografia. A representação dos lugares por mapas permitia o cruzamento de informações de diferentes naturezas, e diferentes origens agrupando-as em um único mapa. Esse mapa seria, por definição, uma obra nova que combina elementos de outras fontes. Com o uso das tecnologias digitais, o potencial de mapeamento cresceu, assim como a facilidade de criar e distribuir obras de cópia e colagem como os mashups. A partir disso, amadores e profissionais puderam criar e distribuir mapas da maneira que achavam melhor, como forma de ajudar a representar, e se encontrar dentro das cidades.

A partir da ideia do mapping mashup, realizei sobreposições de mapas de diferentes lugares, que representam as mesmas coisas. A proposta é, em vez de aumentar as informações sobre o mesmo lugar, criar novas experiências ao sobrecarregar as informações, confundindo a origem das representações. Dessa forma, experimenta-se visualizar os padrões de representação das cidades, e os padrões da própria formação das cidades.

Mapa dos metrôs de São Paulo e Nova Iorque

Colocando os mapas dos metrôs em sobreposição, podemos ver pontos de coincidências, como a presença de eixos centrais de ambos metrôs. Em certo ponto, seguindo linhas de um mapa, nos confundimos e chegamos a pontos da outra cidade. Os padrões se misturam e criam significados no contato com os padrões do outro mapa.

Mapa das regiões centrais de Londres e Cracóvia

Os centros das cidades europeias ainda remetem ao início de suas formações, em torno dos rios. A mesma ponte funciona nas duas cidade. A experiência de sobrepor os mapas oferece um novo jeito de olhar para a própria cidade. O mapa resultante é uma obra nova, que faz sentido a partir do reconhecimento das obras originais.

A partir do mapping mashup, é possível interpretar esses mapas a partir da lógica do flaneur virtual, desenvolvido por Mike Featherstone. Flâneur é um conceito trabalhado por Walter Benjamin para descrever um indivíduo da cidade moderna, que perambula pela cidade buscando novas experiências, novas formas de se relacionar com a cidade. O termo foi adaptado por Featherstone, que trouxe o conceito do indivíduo que explora a cidade como um texto, e tira dela experiências urbanas particulares para o virtual e a internet.

De um lado, temos a finitude da cidade, com suas ruas e edifícios, não obstante a capacidade da moderna cidade industrial de gerar sensações e experiências novas e a cidade da informação. Por seu turno, a cidade dos dados, ou dos bits, no ciberespaço, é infinitamente reconstruível. (2)

Ainda que Featherstone esteja se referindo a conceitos como o hipertexto e a forma de navegação na internet em vez de criar uma relação direta entre as cidades e suas representações dentro do mundo virtual, acredito que em contato com esses mashups de mapas, é possível realizar uma forma de flanêrie meio pelo qual o flanêur realiza sua experiência, experimentando a cidade à sua maneira, navegando por duas ruas simultaneamente, reconhecendo ou renunciando padrões.

As tecnologias digitais permitem que usuários comuns exerçam sua criatividade para realizar e distribuir obras que antes só eram possíveis para profissionais com domínio da técnica. Isso cria um potencial criativo para diversos usos, como o uso científico, como os mapas virtuais e o uso artístico. Além disso, o próprio conceito de mashup pode ser aplicado para o uso na web, quando um site utiliza elementos de outros sites agregados ao seu conteúdo. Exatamente da forma que fiz ao inserir um vídeo hospedado no YouTube nesse texto. A facilitação da produção e do acesso, permite a criação de obras que homenageiam ou subvertem a obra original, criando a enorme variedade de produtos que vemos, sobretudo na internet.

As citações com essa barra, assim como outras ideias presentes nesse texto, pertencem a outros textos, conforme o número entre parênteses:
(1)A cultura digital e seus desa(fios) jurídicos: (um) olhar sobre a autoria em remixes e mashups diante da licença creative commons, escrito por Camila Rebecca Busnardo.
(2)O flanêur, a cidade e a vida pública virtual, escrito por Mike Featherstone.

Outros textos que foram utilizados para embasamento desse texto:

Mapping Mashups: Participation, Collaboration and Critique on the World Wide Web, escrito por Alan Lowe McConchie em 2008.
Remix, mashup, paródia e companhia: por uma taxonomia multidimensional da transtextualidade na cultura digital, escrito por Marcelo Buzato.

Notícia explicando a situação citada no texto

http://g1.globo.com/musica/noticia/2015/05/bjork-ataca-de-dj-e-toca-musica-de-mc-brinquedo-em-balada-de-ny.html
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