Bissexuais existem e estão logo ali

Para compreender a necessidade de um dia dedicado à visibilidade bissexual é preciso primeiro entender sua invisibilidade, a relação que o mundo tem com esse grupo de pessoas. Dentre as letras que compõe a sigla LGBT, a bissexualidade parece ser a que tem sua imagem mais frágil. Homens e mulheres que se identificam como bissexuais têm suas identidades questiondas diariamente. O uso da bissexualidade como um período transitório entre lésbicas e gays é legitimo se serve para facilitar o processo de se assumir. Por ser um assunto de foro íntimo, não há quem possa ditar como e quando você se apresenta para o mundo. Uma das consequências, porém, é que se cristaliza a imagem da bissexualidade como uma fase, um período de transição para o gay receoso ou o hétero curioso.

O Dia da Visibilidade Bissexual (ou Dia da Celebração Bissexual) é comemorado em 23 de setembro por todo o mundo há mais de uma década. Ainda assim, pode causar espanto a informação de que um em cada três jovens dos Estados Unidos afirma que sua sexualidade está dentro do espectro da bissexualidade. No Reino Unido, uma pesquisa recente revelou que metade dos jovens adultos não se considera hétero nem gay. Mas e aí? Onde estão os bissexuais?

A falta de representação na mídia não pode ser entendida como resposta única, mas certamente nos dá uma pista sobre como o individuo bissexual está posto no imaginário coletivo. Comumente, a bissexualidade é retratada como mais uma falha de caráter dos personagens na ficção — assim como o fato de terem uma sexualidade “pouco confiável”. Bissexuais na televisão são frequentemente retratados como infiéis, desonestos e manipulativos, aponta o relatório de 2015 da GLAAD (Gay & Lesbian Alliance Against Defamation), organização não-governamental dos Estados Unidos que trabalha representatividade LGBT na mídia.

A invisibilização da bissexualidade gera mais do que um desconforto àqueles que escondem parte de si para o mundo. A presunção de que todo homem e mulher bissexual é “gay em transição” é mais do que apenas equívoco. A idea que todo bissexual está passando por uma fase é problemática e traz consequências graves, tornando o tema em um assunto de saúde pública.

Estudos apontam que a incidência de doenças mentais e abuso de substâncias é consideravelmente maior entre mulheres bissexuais, por exemplo, do que entre lésbicas e heterossexuais. E a fetichização da bissexualidade feminina, incentivada pela indústria pornográfica só aumenta a ideia patriarcal de que a sexualidade da mulher existe exclusivamente para servir o homem, mesmo quando ele não está presente. Um estudo conduzido em 2013 apontou que dentre as mulheres bissexuais consultadas, metade já tinha sofrido um estupro. Destas, 85% relatam que o abuso sofrido partiu de um parceiro do sexo masculino.

Entre os homens, o medo de sair do armário se traduz nos maiores índices de contaminação por HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis no comparativo com héteros e gays. O relatório do American Journal of Preventive Medicine aponta que, por terem suas sexualidades contestadas, muitos se fecham e acabam demorando a procurar ajuda e tratamento.

A situação é péssima e superá-la exige reflexão e ação para derrotar inimigos ainda mais iminentes e financiadores da exclusão. Antes que falemos em bifobia, é preciso que o patriarcado e a homofobia sejam combatidos à exaustão. Só assim teremos chances de desconstruir a lógica perversa que oprime o homem que rejeita seu privilégio falocêntrico ao mesmo tempo que pune a mulher que ousa se engajar em relacionamentos sem presença masculina. Enquanto ainda não superamos estes obstáculos, não deixe de olhar para seu amigo ou amiga bissexual. Eles existem e estão logo ali.