1/4 de século

Renan Sukevicius
Sep 9, 2018 · 2 min read

o brasileiro tem vivido mais. eu, por sorte (?), vivo justo neste momento de expectativa alta de vida. mas me intriga a ideia de viver muito. acompanhei de perto o fim da vida das minhas duas avós, e foi assustador e fascinante ver no olhar delas - depois de idas e vindas ao hospital, tratamentos e cirurgias - que a vida já era demasiado exaustiva para ambas. elas não tinham um desejo suicida nem nada do gênero, era apenas um pedido à força divina pelo fim.

e tudo bem não querer mais estar aqui em forma de gente. viver e passar por todas as experiências mais malucas do mundo é verdadeiramente maravilhoso. e exaustivo - descansem, dona lídia e dona adélia, vocês merecem. além do mais, aceitar que antes de qualquer dogma somos organicamente terra - aquela terra que faz crescer o pasto das vacas, a cenoura, a beterraba, o manjericão - é encantador. se a vida for só isso, ser gente em vez de terra por uns 70, 80 anos, já valeu a pena.

o escritor angolano ondjaki diz em “chão”, para manoel de barros: apetece-me des-ser-me;/ reatribuir-me a átomo./ cuspir castanhos grãos/mas gargantadentro;/isto seja: engolir-me para mim/ poucochinho a cada vez./ um por mais um: areios./assim esculpir-me a barro/ e resser chão. muito chão./ apetece-me chãonhe-ser-me.

chego no dia 1/10 aos 25 anos de idade. nunca acreditei em transformações de vida a partir de um aniversário. meus 15 anos foram iguais aos 14 e não muito diferentes dos 16, os 18 foram absolutamente normais, os 20 foram apenas a sequência dos 19 e também não acredito que os 25 vão me transformar em outro ser humano. acontece que eu já vivi tempo o suficiente com uma consciência razoável para entender como algumas coisas da vida funcionam. e isso é bom. mas assustador.

não sei quantos anos ainda terei até ser de novo chão. mas, assim como ondjaki, também quero chãonhe-ser-me.