Será que chegou a hora da publicidade mudar o mundo?

Passei os primeiros dias do SXSW, esperando aquele soco

no estômago que o festival geralmente dá. Aquela sensação angustiante de que mundo inteiro está criando coisas mais interessantes que você.

Quando as palestras começam, a angústia toma proporções estratosféricas. Surge a dúvida: não deveríamos estar lá fora mudando o mundo de verdade, fazendo alguma coisa mais genial que as nossas mundanas reuniões de briefing?

Apesar da latência dessa dúvida, grande parte da audiência do festival insiste em outras: como a inteligência artificial vai revolucionar a forma das pessoas se comunicarem, relacionarem e comprarem? VR&AR: fake news ou realidade?

Precisávamos vir à América para entender isso?

Enfim, o soco finalmente veio.

Surpresa, ou não, a primeira virada do avesso que o festival me provocou foi com uma cientista: Jennifer Doudna.

Jennifer criou o sistema CRISPR (do inglês Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats) — em um tuíte, uma tecnologia capaz de editar partes do nosso DNA, revolucionando a genética.

Na prática, em pouco tempo, nossos defeitos poderão ser editados como se edita um texto: literalmente cortando as partes “ruins” e as substituindo por partes “boas”. Essa tecnologia já é inclusive capaz de mudar a genética de óvulos fecundados no útero.

Você consegue imaginar um mundo onde seres humanos podem ser “editados” geneticamente?

Pois é. Assustador.

Agora, imagine o impacto dessa tecnologia nos mercados da saúde, do esporte, na indústria alimentar, e — por que não? — no mundo da beleza e da moda para seres humanos “editados”. Quantos produtos não dependem dos nossos defeitos para existirem, e quantos ainda serão relevantes para quem não envelhece, não engorda, e nem sabe mais o que é vitamina C?

Complexo, não?

O próximo desafio da Jennifer é convidar a sociedade para essa discussão desconfortável.

Na palestra do astrofísico Neil deGrasse Tyson, uma das melhores até agora, veio o segundo soco.

Neil disse que não adianta nada descobrir um novo planeta no espaço se isso não pode ser compartilhado com o maior número de pessoas possível, inspirando a humanidade a explorar o universo e revolucionar o mundo em que vivemos.

Falou ainda que a indústria da comunicação, com nossa capacidade de contar histórias e entreter as pessoas, pode e deve ser responsável para que a ciência deixe o âmbito dos laboratórios e seminários para fazer cada vez mais parte da vida das pessoas. Lembrou de como CSI desmistificou os cientistas e mencionou a série Genius, com seu poder de inspirar o interesse pela ciência.

Pensei na Jennifer e seu desafio de incluir a sociedade numa discussão tão árida. E se, através de conteúdo e entretenimento, questões cabeludas desse porte pudessem ser consumidas por mais pessoas, de uma maneira muito mais simples, engajadora e responsável?

Pensei, ufa, será que finalmente a nossa indústria pode ajudar a mudar o mundo?

Tyson nos provocou: existe 1 astrofisicista para cada milhão de pessoas na Terra. Será que as nossas histórias são capazes de mudar esses números?