Um dia cinza para a história do país

Assistia a história ser escrita frente aos seus olhos, passou todo período escolar encantada com tudo o que ouvia falar durante as aulas, ouviu sobre as lutas, ouviu sobre a ditadura, ouviu sobre como a vida era difícil e como a luta fez o Brasil evoluir. Ouviu de tudo, mas nunca imaginou que chegaria a ver qualquer grande fato histórico. Mas viu.

Assistiu de perto a democracia ser despida, desmoralizada e destruída. Assistiu homens brancos e ricos decidirem o futuro de um Brasil pobre e negro. Assistiu a justiça morrer em nome de interesses pessoais, assistiu de perto cada desfecho que escrevia um enorme capítulo negro daquela história.

Estava envergonhada e triste, mas acima de tudo estava disposta a lutar. Lutar pela visibilidade, lutar pela representatividade, lutar para que a mulher não perdesse tudo aquilo que lhe foi conquistado com tanto suor e sacrifício. A derrota da presidência diante daqueles homens de ficha extremamente suja era apenas o começo de uma nova era, o começo de uma luta que agora ela sabia, não estava só.

Embora os risos exacerbados e os fogos de artifícios na cidade lembrassem uma festa de ano novo, aquele na verdade era um capítulo triste, um capítulo quase reprisado dos filmes e dos livros. Aquele era um daqueles capítulos que você jamais acreditaria se alguém lhe dissesse que era real, mas ele era.

O golpe aconteceu, seguido de falcatruas e especulações sem provas.

O dia estava cinza, até a natureza sabia que algo de errado e muito ruim estava para acontecer e aconteceu. O Brasil estava órfão, perdera sua mãe, perdera sua guerreira, sobrevivente de anos. O Brasil perdeu sua democracia, sua lealdade à vontade de um povo. Mas aquela era somente a primeira derrota das muitas que estavam por vir…Com o novo governo muitos direitos se perderiam, muitas conquistas se perderiam, o Brasil começava a partir daquela tarde um caminhar sem mapa.

E ela, que ainda nova, já havia devorado muitos livros sobre a história do país, hoje só queria poder virar a página, devolver o livro a estante, como numa ruptura entre ficção e realidade. Mas a realidade agora era dura e superava as expectativas de um livro fictício. A sua realidade e a do povo, gritavam a dor da orfandade e da derrota.

Mas naquele dia cinza, onde a morte materna lhe doía o peito, um sentimento bom sobrevivia: a certeza de estar com a consciência tranquila, sabendo que nesse capítulo da história suas mãos estavam limpas, assim como as mãos de Dilma.