O leilão

“Dou-lhe uma!

Dou-lhe duas!

Dou-lhe três!

(ouve-se o martelo

batendo na mesa…)

Poema vendido

Praquela moça das olheiras!”

Sempre eu

A arrematar poemas…

Mas

Pelo verso,

Pago

O preço que for.

Gasto mesmo!

Eu sei, sou estranha…

Raspo as economias…

E não economizo

Entranhas…

E quando, lá dentro,

Alguém perguntar

Como sei estivesse

Em um leilão:

“Alguém dá mais?”

Só eu

Levanto a mão…

Depois,

Ponho o dedo

Na ferida

E rasgo a carne

Um pouco mais.

Ao arrematar

Um poema,

A ferida

Vem exposta

No verso,

E a cicatriz,

Embutida

No preço.

Eu pago

Porque mereço.