POEMA INESPERADO

meu poema vive

ganhando formas:

já foi aflito,

frito,

aceso,

concentrado,

faminto,

bem resolvido,

endereçado,

e ainda vai ser

tudo o que puder…

até esse poema,

inesperado,

que não sabia

que ia ser poema,

que não tinha

lema nem leme,

que tava à deriva

nesse mar de mim,

agora acontece

todo cheio de ciência,

todo prosa… se achando

no meio da minha poesia…

Ah… meu verso

não tem geografia,

não tem coordenadas

para se achar,

só pra se perder…

e no meu verso

eu me perco

e de tanto me perder

me acho…

fico toda prosa

só porque desato

a escrever uns versos

achando que é poesia…

Campos diria:

“se calhar é…

e porque não há de ser?”…

Recorro ao mestre,

tiro ele do contexto

e, ousada que sou,

meto no meu texto

os versos que ele pensou.

E esse poema,

que não tinha

leme nem lema,

parece que se encontrou.