APRECIAÇÃO DO ROMANCE DOIS IRMÃOS — MILTON HATOUM

Minha primeira leitura do ano é um acerto antigo de contas. Motivada pela incrível ficha técnica da minissérie homônima que estreará na TV, mergulhei em Dois Irmãos, de Milton Hatoum. Uma leitura de vez só, sem direito a ir à superfície para respirar. Trata-se de um grande épico forte candidato a clássico. Romance na medida das narrativas que ficam, como as tramas universais centradas nas questões familiares escritas com maestria pelos russos. Acho que tudo de mais relevante sobre este livro já foi dito, devo estar chovendo no molhado, sendo óbvia, rasa, mas as leituras que nos assombram precisam sair do peito, da alma.

Imagens de uma exuberância imensa, intenções, gestos, cenários, pessoas. Tudo é crível e belo, mesmo cruel por vezes. Uma história libanesa-amazônica em que tudo é gente, tudo é personagem, tudo é tão vivo, inclusive o tempo. As palavras dos imigrantes árabes e dos índios, os fatos históricos entremeados com os emaranhados do núcleo familiar de pais amantes, cuja relação aos poucos definha com a chegada e crescimento dos gêmeos. Este tempo-espaço tão específico é universal e atemporal. Texto fluido, direto, encantador no equilíbrio entre os elementos superficiais e os de sustentação central da narrativa.

O autor criou gêmeos diametralmente tão opostos e fascinantes. Difícil como leitora ter uma empatia maior por um, ou por outro. São como nós, mendigos de afeto dos pais, dos amores, pedintes de companhia tantas vezes quando a solidão nos carrega ao abismo. Finalmente conheci o Amazonas, seu povo, cultura, sociedade, o fascínio que nunca entendi pela região. As frutas, cheiros de comidas e gente, os ribeirinhos e peixes, a devoção da religião. Elementos que normalmente não me fariam sentir atraída em uma leitura de romance, pela distância e ignorância de minha parte, mas que fazem todo o sentido e ampliam a beleza e densidade de cenas e tramas.

Ah, este narrador, filho de Domingas. Vontade de pegar nas mãos dele e dividir as dores, angústias, as pequenas conquistas do passado e do presente narrativo. Um jovem sábio sem a amargura de quem quase nada tinha na vida, um mestre de cerimônias de porvires narrativos sem igual. Quanta delicadeza e, reforço, equilíbrio, cuidado em cada frase, parágrafo, que estrutura incrível de um romance orquestradas por Hatoum.

Necessito compartilhar pelo menos com quem não leu, com quem não sabe a grandeza deste autor, que se trata de uma obra de arte imperdível. Quem vos fala é uma leitora voraz, que sabe que não se pode perder a chance de dividir um tesouro a quem leva a literatura como uma luz e razão de vida.

Mais referências:

Dois Irmãos venceu o prêmio Jabuti 2001 de Melhor Romance. Confira trecho de entrevista do autor, Milton Hatoum, e da roteirista Maria Camargo, que adaptou a obra para a série de TV, a Edney Silvestre, no Globonews Literatura:

http://g1.globo.com/globo-news/literatura/videos/t/globonews-literatura/v/literatura-milton-hatoum-e-maria-camargo-falam-sobre-a-adaptacao-do-livro-dois-irmaos/5561973/