Autoria, autoficção, cruzamento entre narrativas literária e cinematográfica em Animais Noturnos e A Garota do Livro

Renata Frade
Jan 22, 2017 · 4 min read

Por Renata Frade

Assisti a Animais Noturnos, filme de roteiro incrível, denso, trama de tensão dramática crescente, com elementos e trilha que remetem a Hitchcock. Um dos elementos narrativos mais evidenciados que me provocaram um encantamento e o desejo de manifestar esta apreciação foi a criação literária. Antes de chegar ao ponto que me levou a escrever este texto, é necessário resumir a trama para quem não assistiu.

Susan (Amy Adams) e Edward (Jake Gylenhaal) se casaram muito jovens. Ele buscava reconhecimento como escritor de obras auto-referenciais e ela, rica, cursava universidade e visava atuar no mercado de artes plásticas. A distância entre as origens sociais e objetivos os afastou. Ela o traiu com um empresário bem sucedido, com quem se casa novamente. A nova relação atinge o ápice da crise na mesma época em que a marchand recebe, sem esperar, um manuscrito pelo correio. O autor era seu ex-marido, o título do livro é homônimo ao do filme.

Roteiros paralelos são estabelecidos. A vida dos personagens dos livros invade a vida caótica e solitária de Susan. Edward, após vinte anos sem contato, envia à ex-mulher uma obra que salta aos olhos, quase agride, gruda, tensiona, amplia a solidão da protagonista do filme. O exercício da leitura da personagem é fascinante, fazer literário é trabalhar o imaginário em nós, não contempla a descrição literal, objetiva como a do jornalismo sobre fatos externos e subjetivos. O exercício do filme é impactar em quadros de imagens, com todos os elementos adicionais, como música e efeitos.

Em Animais Noturnos somos leitores e espectadores, simultaneamente. De obras dramáticas — livro e filme — que se desenrolam para um mesmo fim de seus personagens principais, apesar de se encaixarem em situações e contextos totalmente diferentes. Interessante a troca da auto-referência de Edward para um universo ficcional novo, de violência aguda, sem poupar o leitor (e Susan) de verdades, detalhes na trama policial construída.

Nos ambientes acadêmicos e muitas vezes na publicação de livros de alta literatura a autoficção nem sempre é bem acolhida, vivemos um momento de saturação de publicação de títulos com primeiras pessoas narrativas. A fórmula tem dado certo e se mantido, entretanto, em diversos gêneros do entretenimento. Revelar as entranhas faz vender e cria empatia entre autores e jovens leitores, sobretudo. Sobre este tema, recomendo que leia uma reportagem do El País Brasil, ´´Cansados do eu? A autoficção mostra sinais de fadiga´´

(http://brasil.elpais.com/brasil/2017/01/06/cultura/1483708694_145058.html)

A finalização de um manuscrito representa uma redenção dupla a Edward, personagem que pouco aparece em Animais Noturnos, mas preenche os minutos através das leituras e lembranças da convivência por Susan. Prova seu valor artístico e como o homem que manteve seus ideais íntegros, enquanto a empresária das artes cada vez mais se torna uma figura decadente. As atuações são incríveis, vale a pena conferir.

Ainda sobre obras literárias em obras cinematográficas, conferi recentemente outro filme que vai nesta linha: como a história da escrita de um livro se desenrola em paralelo e, ao mesmo tempo, de maneira tão intrínseca à vida dos personagens do roteiro. A Garota do Livro (em cartaz no Netflix) tem como protagonista Alice Harvey (vivida por Emily VanCamp, a Emily de Revenge), teve sua carreira como escritora sufocada em decorrência de um trauma à Lolita sofrido na adolescência com um escritor aclamado, publicado por seu pai, um respeitado agente. Além da relação íntima vivida entre ambos, ela o reencontra no ambiente de trabalho. Agora é assistente editorial, tenta provar seu valor como editora, na sombra do progenitor, e sua rotina se assemelha a um misto de secretária e relações públicas.

O então respeitado escritor é uma fraude, seu best-seller foi escrito por Alice, que desde a publicação, quase vinte anos depois, provocou um bloqueio criativo e um caráter autodestrutivo em sua condição feminina. O surgimento da Alice escritora, frases do livro que lhe tomaram, permeiam seu presente. O filme é construídos em idas e vindas de flashbacks, a vida em editora de Alice, a fama a qualquer custo e o verniz intelectual do ladrão consagrado. Um dos momentos mais interessantes é quando o personagem não consegue provar o valor como criador literário em público usando seu verniz acadêmico, intelectual. O universo onde transita nunca foi o pop da jovem, com quase 30 anos no presente da trama.

Alice é só, assim como Susan de Animais Noturnos. Em prol de uma carreira que almeja reconhecimento, mata gradualmente as Alices que poderia ser. Seu livro vive, recebeu prêmios enquanto ela assiste o outro ocupar os espaços que seriam dela. A autoficção de uma então adolescente veste a identidade falsa do best-seller que a abusou. A Garota do Livro vale para quem trabalha no mercado editorial, ou tem interesse em publicar livros, pois revela situações cotidianas da produção à divulgação que são reais, eu mesma experimentei algumas trabalhando na área há 15 anos. Quanto obra cinematográfica não tem a relevância, densidade e originalidade do primeiro filme mencionado neste artigo.

São raros os filmes que tratam de questões do mercado editorial, sobretudo os que criam a intercessão narrativa literária e narrativa cinematográfica, remontam a processos de criação, dramas envolvidos. Recomendo que assista a Animais Noturnos para deleite e A Garota do Livro para conhecer meandros desconhecidos sobre processo de criação, autoria (o que é verdadeiro e falso), trabalho em editoras.

Trailers legendados:

https://www.youtube.com/watch?v=MA4wBYcgEUQ

https://www.youtube.com/watch?v=HF41OmdB3GE

Renata Frade

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Storyteller, entrepreneur, transmedia strategist (mobile, apps, communication tools).