O que te faz degenerada?

O que me faria degenerada senão a situação de calamidade ético-política que o Brasil enfrenta hoje?

Há que se ponderar que quando me faço degenerada, me esqueço da qualidade própria da minha espécie. Mas que qualidade é esta, a que me diferencia das demais espécies?

Segundo o filósofo alemão Arthur Schopenhauer, o homem é um animal metafísico”. Sob outra perspectiva e complementar a esta, o conterrâneo de Schopenhauer e filósofo Martin Heidegger afirma que metafísica “se consiste das questões que lhe são próprias e das pressuposições que elas implicam, nenhuma antropologia poderia ter nem mesmo a pretensão de desenvolver o problema do fundamento sobre o qual a metafísica deve repousar.”

Faz-me degenerada refletir que caminhamos a passos lentos em direção aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), propostos pela Organização das Nações Unidas (ONU) que devem ser atingidos até 2030.


São 14 anos para conseguirmos:

1. Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares;

2. Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável;

3. Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades;

4. Assegurar a educação inclusiva, equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos;

5. Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas;

6. Assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todos;

7. Assegurar o acesso confiável, sustentável, moderno e a preço acessível à energia para todos;

8. Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todos;

9. Construir infraestruturas resilientes, promover a industrialização inclusiva e sustentável e fomentar a inovação;

10. Reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles;

11. Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis;

12. Assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis;

13. Tomar medidas urgentes para combater a mudança climática e seus impactos;

14. Conservação e uso sustentável dos oceanos, dos mares e dos recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável;

15. Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da terra e deter a perda de biodiversidade;

16. Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis; e

17. Fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável.


Em tempos de fundamentalismo onde bancadas governistas pouco representam os interesses do povo, estamos tratando também das condições de moradia nas periferias; as questões de saneamento básico no nosso país; a questão da saúde pública e do seu sucateamento; todas as violências cometidas contra a mulher, contra as pessoas trans, contra os homossexuais, os índios, os negros, os pobres, as pessoas que vivem nas ruas; a corrupção entranhada na cultura de alguns, especialmente na esfera política; os baixos salários dos trabalhadores brasileiros, sobretudo em função dos custos de vida; o trabalho escravo; o trabalho infantil; o consumo desenfreado e todos os impactos inevitáveis desta decisão como a construção da subjetividade valendo-se de referências midiáticas, que não se importam com os nossos valores éticos, sem dúvida incentivada pela publicidade exacerbada do verbo ter; o aumento das dívidas das famílias que se agrava também pela baixa escolaridade e novamente à exposição de um desejo que contesto ser próprio; a violência que assola o nosso país, incluindo a que é cometida por autoridades policiais, sobretudo contra negros, pobres e periféricos; a falta de condições decentes de trabalho nas esferas públicas, sobretudo as que atendem a população; a falta de incentivo à pesquisa acadêmica; as dificuldades que as pessoas enfrentam diariamente no transporte público e longe de finalizar esta extensa lista, a falta de consciência do ser político que somos.

Um degenerado que se corrompe pelo poder, pela ganância, pelas promessas excitantes do capital, no entanto, se deitará tranquilamente diante das mazelas sociais que convivemos cotidianamente.

É um degenerado pela preguiça que lhe assola.

Me agrada, contudo, ser uma degenerada pelo que me enfurece. O que me enfurece deixa-me frustrada e a frustração tem como sentimento-base a raiva.

Segundo o pediatra e psicanalista inglês Donald Winnicott a “agressividade que é relativa à frustração, pressupõe um alto grau de amadurecimento.” Afinal, “nós, antes de sermos pulsões, somos tensões”, bem disse Heidegger.

Que a pulsão seja de vida. De vida plena e abundante.

A abundância democrática que nos faz falta nestes tempos de pouco afeto, sentimento próprio da nossa espécie. Afetos necessários e urgentes para combater as mazelas cotidianas.

Devemos idealizar, refletir e trabalhar por um país que seja de todxs.

E quanto a você? O que te faz degenerada(o)?

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