Existir é sobreviver a escolhas injustas (ou sobre ser uma mulher forte)

cena de The OA

No dia em que ele chegou sem uma mochila meu cérebro congelou, como quando tomamos rápido algo muito gelado e uma dor finca o meio da testa. Naquele momento, tudo é aquela dor, o restante do corpo desaparece. Naquele momento soube que ele viraria pretérito, e que em algum momento, oportunamente agora, estaria escrevendo sobre ele ou as coisas que disse. Como escrevi sobre todos os outros abandonos. Porque, inevitavelmente, em algum momento, sou abandonada, se não por mim, pelos homens. Esse me disse: “eu não tenho essa sua força”. Respondi: “é porque nunca precisou”.

Essa frase ressoa e dói na minha testa nos dias desde então. Tenho pensado nessa figura quase mítica: a mulher forte. Jogo a expressão no google e ele me devolve imagens de halterofilistas, de mulheres extremamente musculosas. Mas não é nelas que estou pensando, lembro do tanto de mulheres que conheço, gordas, altas, baixas, magras, médias… e tão fortes. Tenho pensado no quanto “ser forte” é escolha ou uma possibilidade de sobrevivência. A possibilidade de sobrevivência. Assistindo The OA me deparei com a frase: “existir é sobreviver a escolhas injustas”.

Se gordas, temos de ser fortes ao ouvir de um médico que estamos doentes, mesmo antes de pedirem qualquer exame que comprove isso, aceitar e mesmo agradecer a receita de remédio para emagrecer (que tem em sua bula um alerta para a possibilidade de causar transtornos psiquiátricos). Sua vida sexual vai ser questionada, ou mesmo presumida inexistente, afinal, quem gostaria de transar com uma gorda? Sua vida afetiva também: você, gorda, sabe que seu marido não te ama como você é, não sabe? Tão bonita de rosto, porque não emagrece? Mulheres foram feitas para serem pequenas.

Mas mesmo fisicamente pequena, você será questionada. Mesmo magra, talvez seu cabelo não seja o correto, em uma estação você tenha poucas sardas, na próxima sardas demais, seu nariz seja muito grande, sua sobrancelha muito fina ou falha. Ser mulher é sempre ser falha. Sempre ter algo a ajustar, melhorar, apertar, retocar. Ser mulher é como uma placa de aviso que vi nas estradas uruguaias: “gente em obra”. Mas só uma parte da humanidade é “gente em obra”, só de uma parte é exigida abnegação pelo bem “comum”, compreensão infinita, perfeição estética, mesmo que através de automutilação. Ou vocês já ouviram falar de cirurgia plástica para “melhorar” a aparência do pênis?

A questão é que não interessa o quanto você tente se ajustar, você nunca será perfeita. Você até pode um dia perceber que as últimas capas de revista mostram mulheres com uma cara meio de sono, meio de doentes ou de ressaca, quase a mesma que você ostenta numa segunda-feira de manhã pós feriadão. Quase: você não possui esse cansaço construído com uma maquiagem que o simula perfeitamente e ainda ressalta os lábios, o ônibus não proporciona a luz correta, e você não está coberta pelo invólucro de marcas que a modelo carrega. Você está errada. Sempre. Só por existir e ser o que é: imperfeita. Mulher.

Ao homem que disse não ter a minha força, repito: você não precisa. Você não será o único responsabilizado em caso de uma gravidez acidental (mesmo que tenha prescindido de preservativos, pois “não é a mesma coisa”), não será massacrado socialmente se resolver criar um filho sozinho (pelo contrário, será exaltado), não precisa sofrer as consequências (físicas, emocionais, de julgamento) de fazer a escolha (ilegal e desamparada) de não dar seguimento à uma gravidez indesejada. Você não espera ansiosamente seu período menstrual para então suspirar com alívio por não ter, esse mês, que viver uma das possibilidades listadas acima.

De você não só não é esperada a perfeição, como exaltada a imperfeição: “homens amadurecem mais tarde”, “homens amadurecem aos 54 anos”, são resultados de uma busca no google por “homens amadurecem”. Mas a frase mais significativa para mim é “homens são assim mesmo”. Antes que a turma do “not all men” apareça por aqui para dizer que as mulheres estão (novamente) erradas fazendo essas simplificações, generalizações, proponho pensarmos na simplicidade dessa frase. Na aceitação que ela traz: os homens são assim. Os homens têm o direito de ser assim, mesmo, do jeito que são. Emocionalmente, esteticamente, eticamente (para ficar nos adjetivos iniciados em “e”).

A frase é dita muitas vezes em tom pejorativo, mas também em tom condescendente: não há nada que possamos (como mulheres ou homens) fazer, os homens, eles são assim. Eles não têm responsabilidade emocional, não são ensinados a cuidar, não são socializados para priorizar o outro, não têm pretensões de perfeição. Não poderiam ter feito nada de diferente do que fizeram, afinal são homens, portanto, imperfeitos, plenamente e justificadamente imperfeitos. A nós, mulheres, restam poucas opções diante da imperfeição socialmente construída e aceita dos homens: para não virar passado, tentarmos ser mais que perfeitas, compensar tudo o que não o que não podem nos oferecer e, consequentemente, nos abandonarmos. Ou sermos fortes, e possivelmente por isso mesmo, repetidamente abandonadas. A frase finca minha testa novamente: “existir é sobreviver a escolhas injustas”.

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