Quando minha prática de yoga morreu

Naquele dia quente de dezembro eu estendi meu mat, fui entoar o “ashtanga mantra”, que repeti por 12 anos seguidos quase que diariamente antes de começar a minha prática, e nada. Ele havia simplesmente sumido da minha mente. Eu procurava, e ele não vinha. Estava na Índia e tinha acabado de passar 10 dias em um retiro chamado “Kali Yoga Namaskara”. Era 2015. Kali é considerada uma deusa feroz, que destrói nosso ego e acaba com nossa ilusão. Uma Mãe que liberta seus filhos do ciclo de renascimento e morte. Nesse dia, entendi. Minha prática de asana havia, simplesmente, morrido. Morrido com um tanto de outras coisas que eu havia deixado ir, com a ajuda da foice que Kali carrega com ela. O ashtanga vinyasa yoga tal qual eu o conhecia e praticava tinha perdido tanto o sentido, que eu insistia, insistia, e nem do mantra me lembrava mais. Tilt geral no sistema. Branco total. Nem suryanamaskara. Respeitei aquele momento, e, com a imensidão do Mar da Arábia na minha frente, chorei. Aos prantos. Aceitei. Entreguei. Desapeguei. Voltei pra casa depois de um tempo e demorou muito pra que eu estendesse meu mat outra vez e tentasse de novo. Respeitei. Passei meses fazendo meditação duas ou três vezes por dia. E seguia chorando, ao mesmo tempo em que minha vida ia mudando na velocidade da luz. Precisei de uns seis meses pra voltar a fazer a prática de yoga que eu tanto amo, e foi um processo muito gradual, lento e solitário. Precisei ressignificar. Ou melhor, trazer um significado amoroso e gentil, comigo mesma, para ter sentido passar quase duas horas por dia em cima de um tapetinho me contorcendo. Precisava ter um sentido. Precisava ser sem dor. E no amor. E assim hoje é. Um caminho muito meu. Todos os dias quando subo no mat, peço que a Mãe Kali me guie em absoluto, para que aquela prática possa seguir lapidando meu ser, destruindo meu ego — e que possa ser de alguma serventia para o mundo. As imagens abaixo falam por si. Que possamos, cada vez mais, compartilhar o Yoga, ou seja, o Amor e a União, com o maior número de pessoas possível. Que o Yoga possa ser uma ferramenta de educação para o ser. Que possamos trazer um significado para a nossa prática, todos os dias. Om Maha Kaliye Namaha!

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