dona francisca e o disfarce do absoluto (ou os filhos dos costumes autoritários)

"… ia te treinar a desfazer o nó que invariavelmente cega as nossas ideias…" (João Anzanello Carrascoza em "Caderno de um Ausente")

enquanto dona francisca sofria de falta de infância, lhe sobrava uma espécie de apatia social. enquanto ela queria fazer parte do mundo dos adultos como alguns adultos querem fazer parte do mundo das crianças, dona francisca se escondia por trás de uma máscara de fingimento: escondia-se dos afazeres infantis como brincar de bola, boneca de pano e cinco marias para fingir receita de bolo ao lado da avó austríaca. aos catorze anos, dona francisca fingia em demasia— e à maneira adulta de fingir, não à maneira criança. fingia para disfarçar decepção, para não assumir imperfeição, fingia que se importava para fingir um pouco mais quando fingia a importância muito bem. foi assim, afinal, que conseguiu ser posta atrás de um balcão de loja de materiais fotográficos logo que teve altura suficiente para trabalhar para os outros e não para si mesma. e ali fingia diariamente que queria saber do problema dos outros, quando na verdade vivia menosprezando clientes por falta de discernimento, falta de senso estético e dúvidas tolas. dona francisca vivia pensando, com sua ambição de ser adulta o quanto antes, que seus clientes não entendiam nada de fotografia — o que a fazia questionar hora após hora de trabalho se aquilo também era parte de ser adulto, fingir ser o que não se era, fingir ter o que não se tinha, fingir ver o que não se via. como, naquela idade, dona francisca já tinha idade suficiente para também julgar os outros como bem entendesse, juntou-se um pensamento ao outro e ficou claro feito lâmpada elétrica e não mais vagalume: ser-se adulto era muito mais fingimento do que ela imaginava que fosse; porque não era apenas o fingimento para si mesmo, mas para os outros.

não importa que fosse contraditório porque na adultice o ser humano se corrói em contraditoriedades o tempo todo, então dona francisca pensava e comprovava olha a minha mãe falando isso e fazendo aquilo, falando que vai comprar bolo de milho e trazer fubá, falando mal dos vizinhos e pedindo açúcar emprestado, dizendo em suas aulas de pintura sobre retratar os negros brasileiros e dando cor de prestígio a navios negreiros. a mãe de dona francisca, que não era tão mãe mas não dava pra lhe dar tantas outras importâncias, era apenas adulta pela nostalgia que sempre colocava à mesa. só que também era sempre muito necessitada de um berço de ouro no qual ninar as desesperanças — coisa que não tinha idade porque ninguém nunca tinha ouvido falar disso, o contrário da esperança. até então só se falava da perda, da ausência dela — , então a mãe de dona francisca permanecia no limbo entre os negros e os navios, e entre o brasil e a europa, e entre as crianças e os adultos, e na maioria das vezes ausente entre os homens. lhe era muito difícil aceitar os cenários, embora não necessariamente os detalhes. seus quadros eram sempre cheio de detalhes pintados a mão nas aulas de pintura para pequenos adultos de família rica, porque a mãe de dona francisca se sentia mais parte dessas outras famílias tão aristocraticamente retratadas nas maneiras e nas molduras, e não necessariamente da própria. em um país tão minúsculo quanto o brasil perdido no atlântico, porque para ela era pequeno como uma hospedaria de imigrantes e não tinha nada mais além de alguns imigrantes do lado de dentro e alguns negros do lado de fora, aquela jovem-senhora-mãe não podia acreditar em um império tão austríaco desmoronado, sua descendência desmoronada, não podia acreditar que não voltaria a ver seus castelos e sua viena e suas artes ornamentais e thomas ender e seus homens, pequenos homens burgueses que nunca pisariam o brasil, porque o brasil não havia valorizado thomas ender e suas aquarelas, porque suas aquarelas eram apenas admiradas pelos austríacos e europeus e pequenos homens burgueses que sabiam identificar as belas-artes. e, convenhamos, mesmo se esses pequenos homens pisassem o brasil, já não seriam mais os mesmos — porque a impermanência do ser humano atinge a todos sem exceção.

ou quase todos. dona francisca, por exemplo, permanecia relutante a seu próprio modo. e não se podia dizer que ainda era muito nova para ver a vida como realmente era, porque dona francisca era mais adulta que as antigas fotografias da loja de materiais fotográficos. porque não tem memória que tenha consciência de sua volubilidade, que se mantenha firmemente no rumo da convicção sem tropeçar em pedras paradoxais. muitos adultos, por outro lado, fingiam que sim. e dona francisca reparava: fingiam para si mesmos mais do que para os outros, aliás. mas isso, para dona francisca, era um deslize de infância. era falta de determinismo e determinantes, porque ser adulto para ela era acreditar na rigidez do tempo e na imutabilidade das escolhas. ou a gente pode mudar os ingredientes do bolo quando ele já está no forno? ou a gente vai perder o tempo de feitura de um gorro de tricô para colocar outras cores no tricotar? ou a gente quer tirar foto em cima de foto porque a anterior não era o que a gente queria a gente queria aquela outra paisagem aquele outro momento que já passou que não deu tempo de fotografar e assim o filme foi todo sobreposto. dona francisca acreditava que tinha que fingir melhor — tanto quanto ou mais que aquele um casamento de conveniência que sua mãe lhe fofocara outro dia como quem nada diz mas tudo pensa e vice-versa — , até que o fingimento virasse sinceridade, crença absoluta, dez dedos de certeza nas palavras saídas tanto pelo impulso quanto pelo raciocínio matemático necessário para calcular o quilo de farinha no mercado.

foi assim que dona francisca então descobriu o peso que suas palavras podiam ter na balança que mede a aceitação e a aprovação de quem quer ver criança crescer com os mesmos modos e maneiras que os pais. porque era pra isso que aquelas crianças do bairro vinham ao mundo: para seguir carreira nas expectativas e mandanças daqueles que cruzaram léguas de imaginação — uma herança que permeia até hoje alguns lares de não importa a descendência.

foi assim então já que não importava mais como e sim o quê, um erro de interpretação, que dona francisca foi assimilando as palavras, o significante, os tons do significante, os significados, as metáforas, a duplicidade dos significados, as ironias responsáveis pelos distanciamentos entre pessoas de cor assim ou assado, de cabelo assim ou assado, de sexo assim ou assado, de assim ou assado porque um era sempre melhor que outro, nunca o cru podia ser mais, que o cru era incompleto, defeituoso, anormal, desmerecedor de qualquer olhar isento de molduras sujas e enferrujadas. o cru era pouco, muito pouco para que também pudesse ser assado, que de dentro da cozinha o cru sempre ficava a congelar e o assado a ser ansiosamente aguardado. "tira a cara desse forno que logo logo você acaba virando carvão", lhe dizia a mãe e a avó e o pai, e as irmãs lhe chamavam de “negra da cozinha” e todos riam e dona francisca tanto se enfadava com aquilo de ser chamada do que não era e ter que aceitar o que não era, além de ter que arcar com as consequências daquilo que inventava em sua própria cabeça, porque nessa hora era tanto adulta quanto criança e, com o tempo de plantar amargura, pegara birra dos negros que vira e mexe encontrava pela cidade porque lhe faziam lembrar daquela tola memória tão mal guardada e tão mal plantada que não era tão tola assim. até que um dia, na loja em que trabalhava, dona francisca disse a um cliente (que não era o cliente mas o negro que prestava serviços para o famigerado cliente): “mas que negro burro”, disse. assim, sem mais nem menos, até hoje ela nem sabe dizer se realmente o disse em voz alta ou se o cliente ouviu seu pensamento exaltado por conta do passado, da lembrança, da birra infantil que não aguentava das irmãs mais novas, daquelas memórias que nunca viram passado e vira e mexe ecoam no presente porque só criança sabe esquecer com facilidade, adulto nem sempre, adulto precisa de treino e prática arrancando as ervas-amargas da própria pele. o senhor, que era negro e conhecia as agruras de um país escravocrata, lhe olhou com olhos de espanto, uma garota assim já com essa violência nas palavras e nos atos e nos pensamentos sem mais nem menos, o que lhe fazem os pais, e a verdade era que não era nada tão horroroso assim para que ela fosse alvo de pena e compreensão e melhoras. dona francisca percebera muito depois que esse deslize-ímpeto, não soube bem definir, era daquele tipo de pensamento que vai encafifando na cabeça pelos ouvidos, entrando feito verme em busca de um terreno novo em folha e adubo e crueza na paisagem para cavoucar e cavoucar e se estabelecer no fundo da terra pra fazer areia movediça com as ideias, que logo que vão entrando ali permanecem do jeito que entraram, logo engolidas pela influência do meio em que se vive e das condições climáticas em que se descuida e em que se pena, afinal. mas levou muito tempo até a dona francisca se dar conta do descuido, porque para ela apenas crianças podiam ser descuidadas, adultos não. adultos não podiam cometer erros acidentais, somente propositais. então ela contornou a expressão e fingiu que havia sido proposital, e era como se o sol que lhe deixava rosa lhe houvera queimado a pele tanto quanto os olhos e lhe desumanizara. para considerar-se adulto, afinal, algumas coisas tinham que estar bem claras desde o momento em que se atinge 1m45cm ou maturidade suficiente para esconder engolir cortar o choro com garfo e faca: embora fosse preciso fingir ternura, também era preciso se inspirar na casca dura do pão da semana passada que podia servir de comida se misturado ao leite. e portanto era preciso comer até o fim a crueza dos dias cruéis porque a crueldade às vezes vinha era de dentro e o cuspe lhe pareceu para sempre a única saída.

dona francisca havia se assustado, sim. na hora em que duas palavras pesaram mais que duas toneladas em seus pés, não tinha como não perceber que são poucos os que escapam ilesos da infância, que as vozes ao redor invadem feito erva daninha e, depois de catorze anos, lá estava ela optando por fazer do outro copo descartável em vez de espelho inquebrável, por estranhar-se do outro em vez de entrar em um novo labirinto para encontrar-se pela primeira ou centésima vez já não importava porque a chance estava perdida e como adulta dona francisca já não sabia mais voltar atrás pedir perdão; porque era mais fácil afincar-se no que se disse do que resgatar a palavra mal dita da água já turva, retorná-la ao útero de onde nunca deveria ter nascido porque alguns pais não sabem o que fazem com as crianças, são pequenos adultos fingindo consciência em vez de realmente sê-la, fingindo empatia em vez de realmente tê-la, fingindo humanidade na televisão em vez de realmente tocá-la, levando crianças pela mão para se afogarem em areias movediças geracionais.

a areia movediça dos outros, depois de tantos anos, dona francisca nunca pôde determinar do que resistia. e eu não saberia dizer se ela se deixaria ser personagem de uma história assim de palavras gulosas, dessas que determinam futuros apáticos e hostis quando recolhidas de poços cartesianos de individualidade. dona francisca não sente culpa porque não sabe mais o que é memória e o que é presente, talvez muito menos o que é culpa. porque ela não cruzou a linha de chegada do futuro em que muitos de seus possíveis netos já não querem fingir tão bem quanto ela quando criança-metáfora. para eles, areia movediça já deve ser poça desviada todo dia; porque não dá pra fingir o salto com todas as discordâncias nas mãos, nem pra se prevenir dos choques e das continências. que sem cautela já vivem as crianças, de verde-e-amarelo vendo o mundo do alto, seguindo às cegas os passos das autoridades disfarçadas, dos condutores sem caminhos propícios para ser-se quem se é sem contar regras e frases prontas.

depois de velha, dona francisca voltou à infância. mas já era um pouco tarde para aprender que a gente não precisa se afincar no que a gente ouve, mas no que a gente se liberta.

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