Pesadelo

Estou dopada.

A rotina me paralisa como uma epidural que deu errado, enquanto a cadeira de rodas mágica da alegria me ilude e faz criar esperanças do que nunca será.

Tento gritar, mas o desespero se confunde com a euforia enquanto me carregam pelo corredor da morte, o rangido ininterrupto da cadeira de rodas é a marcha nupcial que inicia o ritual da minha união com a desilusão.

Os rostos na plateia me encaram estáticos, plásticos, impotentes. Os sorrisos desenhados com um piloto para quadro branco barato, as mãos grudadas em formato de palmas de forma mais ameaçadora que feliz. Tento gritar de novo, em vão. As mãos da Pressão, que me carrega até o longínquo altar, fazem peso sobre meus ombros e não posso deixar de sorrir e me deixar ser guiada até onde o celebrante me espera, os olhos fixos em mim, zombando de minhas pernas inúteis, meu sorriso fácil e meus ombros tensos. Permaneço fadada a esse destino cruel digno dos piores pesadelos: no fim, vivemos felizes para sempre.