Ninguém está l(v)endo

Renata Maneschy
Aug 24, 2017 · 2 min read

O melhor jeito de conseguir escrever é imaginar que ninguém está lendo. Acho que isso vale pra andar de bicicleta, dançar de olhos fechados, dar risada, amar, viver... O medo maior é de falhar ou de parecer feio? De se machucar ou de ouvir uma gargalhada debochada? Mas como li em algum lugar: “E se der medo? Vai com medo mesmo”. Eu vou. Sempre fui. Acho que medo é uma palavra que anda me cercando faz tempo. Ele começa nas pequenas coisas ou nas grandes? Mas a principal pergunta é: onde termina?

Tudo que começa acaba. Mas quantas coisas terminaram sem nem começar. Tantos sonhos morreram em alto mar. Milhares de palavras se perderam no turbilhão da minha mente sem nem virarem uma frase. Apenas vagando, soltas, querendo fazer sentido. Único sentido que conheço é ir em frente. Não sei se me ensinaram desse jeito ou se é instinto. Mas é pra lá que eu vou.

Tem gente que consegue organizar os pensamentos como quem escreve um livro. Tem uma ideia, separa por capítulos, divide a história. Sabe pontuar cada momento. Criar, planejar, executar. Eu não sou essa pessoa. Pelo menos não escrevendo, nem vivendo. E se eu vivesse da mesma forma que escrevo? Imaginando que ninguém está vendo tudo seria mais fácil.

Esse tribunal mental que atrapalha tudo. É lá que as pessoas estão vendo, julgando e apontando o dedo. É esse mundo formado por críticos que apavora. Ver, tudo bem. Falar mal, não. O mundo assombrado pela ausência de “joinhas” sinceros ou perdidos. Quanta bobagem!

Ninguém está lendo. Ninguém está olhando. Alguém está vendo, mas isso não importa. O verdadeiro juiz sou eu mesma. A verdade não está lá fora. Ela simplesmente não existe. Toda história vivida e contada é formada pela minha percepção da realidade. Cada lembrança é uma traição. Honesta, mas é.

Como separar os fatos das ilusões? É documentário ou ficção? Não sei. Minha vida não tem gênero, nem classificação etária. Tem história, muita história. Esse roteiro improvisado já tem um fim programado. Só não sei os detalhes. Vai ver é por isso que eu não gosto de filme de terror, abro um sorriso quando assisto a um drama e choro vendo uma comédia. Não parece lógico. Tá aí outra palavra que não faz sentido: lógica. Ao contrário do medo, essa se mantém ausente do meu vocabulário constante.

Vai ver é crise dos 40, mas aos 15 tudo já era confuso assim. Outra prova de que nunca soube onde as respostas estão. Já as perguntas continuam no mesmo lugar. Encostadas no medo, elas seguem gritando aqui dentro. Não confundo nada disso com covardia. O que aliás não tem a menor lógica (falei que isso não existia na minha vida). Covarde não é quem sente medo. É quem não tem coragem. Pedalar, dançar, gargalhar, escrever, amar, viver…

Faz sentido?

)

Renata Maneschy

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Nem tudo é verdade, nem tudo é mentira. Tudo é a vida.

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