“Pra que conversar com gente pior que a gente?”

Sensitiva Márcia Fernandes

Ignoro o contexto desta imagem. Gostei muito e estou há uma semana pensando seriamente em adotar como filosofia de vida. Veja, não se trata de me colocar num patamar de coerência, sequer de inteligência. Justeza ou humildade. Decidi que não vou conversar com gente pior do que eu.

Neste ano de 2016, estamos acompanhando o Brasil entrar num fosso que eu desconhecia, como consequência dos últimos anos. Nunca vivi algo assim, talvez por isso me choque tanto. Já li, mas não vivi. Sigo dando risada, mas de nervoso.

E pode piorar porque estamos dando ouvidos para gente pior do que a gente. Então, sinto hoje a necessidade de me colocar como parâmetro do pior que posso desejar para outro alguém sem me autocensurar. Vou fundo, só que há aqueles que parecem habitar o pré-sal do pior.

Por partes: a questão passa longe de ignorar a opinião que seja diferente da minha. Por mais sedutor que seja, não pretendo morar em uma bolha. Por exemplo, é possível ser a favor de bolsa família, ser contra e ter críticas à transparência do programa, reconhecer a importância para o combate à fome ou, ainda, pensar que é uma política pública limitada e que poderia ter incentivos maiores para a autonomia do beneficiário. O que não dá é para chamar pobre de vagabundo e falar em esterilização em massa. Não dá.

Evitar conversar com alguém pior do que eu tampouco significa polarizar o debate ou ignorar o discurso liberal. Acredite, faço votos para que o liberalismo se reerga se for para combater este conservadorismo tosco que uma molecada resolveu apoiar. Torço, inclusive, para que muitas meninas descubram que há, por exemplo, feminismo fora da esquerda e que não precisam abraçar o conservadorismo para criticar o movimento. E, quem sabe, construir uma base bonita para o feminismo liberal no Brasil. Não é o feminismo que topo, mas ainda é um campo de diálogo, de mudança.

Aproveitando que falei de feminismo, gente pior do que eu não é aquela que não é feminista. Por favor, sou pela escolha. Ocorre que a discussão pode ter seus diversos lados e estágios, porque as realidades são várias, os problemas são vários. Assim, faz todo sentido que as discussões sejam diversas, aplicadas a cada contexto. Agora, pior do que eu é aquele que gosta de amarrar no poste, inclusive a vítima, e partir para a castração química. Não dá.

Querer distância de alguém que seja pior do que eu, neste momento, significa deixar de discutir com boatos de internet. Veja bem, não há qualquer traço de elitismo discursivo de minha parte, muito menos uma crítica ao parco letramento. Eu quero distância do boato repassado conscientemente, da injúria, do veneno gratuito.

Outro ponto fundamental: gente pior do que a gente não se trata de bem versus mal. Nesta tecla eu faço questão de bater várias vezes. Não conversar com gente pior do que eu significa definitivamente abandonar o maniqueísmo e o barroquismo político. Não me colocar como “o bem” porque, então, vou ter que acreditar que na política há espaço para “o mal”, seja lá o que isso significa.

O meu pior não se comunica com o discurso do quem não deve não teme ou os fins justificam o meio. Não dá. Daí para baixo é barbárie, ainda que a ideia de civilização esteja capenga.

Não conversar com alguém pior do que a gente não significa dedicar ao outro o silêncio. Imagina! O silêncio é necessário, é reflexivo. É ouro. Neste caso cabe o arregalar dos olhos, o vago “é complicado” ou o indefectível “pois é”. Porque gente pior do que a gente (e insisto que a base seja o pior da gente) não conversa. Faz ruído.

Gente pior do que eu abre mão dos direitos, só que dos outros. Um dia isso vai bater em mim ou nos meus, é questão de sobrevivência. E tudo isso porque o discurso de gente pior do que a gente está se fortalecendo para as campanhas eleitorais. Não dá.

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