Constelação G

Queimei a língua com café
Um ponto pra minha falta de fé
Na paciência monótona
Queimei a mão também
Quando a coloquei no fogo, jurando te conhecer tão bem
Queimei uma foto sua
Só pra figurar o nosso amor
Que começou com uma chama
E terminou em cinzas
Dei ao vento o pó que restou
Fiz um pedido
Eu só queria conversar
Falar das coisas contidas
Dizer em tom claro, não obscuro, que eu ainda não passei dessa fase
Eu gostaria de explicar melhor o que eu ainda carrego
Falar do que eu nego
Durante o dia
Coloco ainda, porque estou à deriva, ainda
E não sei a data exata que vou parar de sentir muito por você
E muito não é demasia
É coisa grande
Some no horizonte
Não cabe na tela da calculadora
Não mensura com algarismos
Estou em pendência com o seu romantismo
Mas estou aqui para falar
Desabafar, desabar em teus braços
Essa infinitude de partículas, sinapses, conexões neuronais que eu sinto
E sintetizo
Eu só gostaria de conversar
Nada de juras, coisas eternas, explicações afáveis
Há caminhos inviáveis
Hoje eu tô bem
Longe de onde gostaria de ficar
Com a língua queimada
Com a boca escancarada
Gritando no vácuo do peito entreaberto
Que apesar de tudo
Tudo mesmo, há muito para relevar
Eu ainda te quero perto
Do lado esquerdo do meu pescoço
Olho na esquina do meu ombro e faço um esboço
Do teu corpo delineando em cima do meu uma pequena constelação
Dei o nome de ponto G perdido no espaço
Eu só gostaria de um abraço
No meio fio dos meus braços
E desfiar desculpas entre os lábios por ter desfeito o laço
O nó que nos unia virou um embaraço
Sou dependente do que faço
Mas não depende só do que traço
Te amo, isso independe do seu descompasso
‘inda guardo um pedaço
Do meu travesseiro pra diluir o teu cansaço
E se eu embaço a vidraça
É porque cê ainda passa
Como um loop infinitas vezes quando eu imagino que cê me abraça