Subterfúgio

Cinza poente rente a janela no céu aberto
acordei de repente, nada parece certo
tudo desencaixado, fora do anormal
cama, cabeça, tudo bagunçado, está tudo desigual
tudo desigual à noite anterior, tudo desigual ao decadente torpor
hoje não quero sair da trincheira do meu quarto
e ver com os próprios olhos as guerras paralelas
que se estendem pelas conexões neuronais das ruas e das memórias
quero permanecer
intacta dentro desse cubo mágico
que me assegura do pior
a fuga inexata da milésima guerra mundial
que já sei do final
alguém perde, alguém ganha
alguém se diverte e alguém apanha
não sei mais como descolar essa infelicidade
que paira em minha pele
talvez não seja infelicidade
talvez seja sobriedade em demasia
e essa azia pontiaguda no fundo do estômago
sejam borboletas flutuando pelo âmago
fomentando colapsos de poesia
ou talvez seja infelicidade instantânea
coisa simples, momentânea
até onde eu sei, vai passar
estava pensando na cura mais prática
talvez um dorflex
ou se vestir bem sexy
ou uma barra de chocolate meio amargo
pra tirar essa barra de cima das costas e adoçar o amargo da alma
infelicidade instantânea
espero que dure menos que o miojo no fundo da panela
serei obrigada a enfrentar as guerras paralelas
de seres humanos tóxicos e trágicos
depois eu volto para meu cubo mágico
de quatro paredes brancas
e talvez descubra um jeito de encaixar
o problema e a solução