O novo perfil do Crítico de Cinema

Imagem: Roberta da Silva

Uma experiência horrível de duração insuportável. Se você quiser economizar no preço do ingresso, imagine que você está em uma cozinha e um coro masculino está cantando uma música do inferno junto com uma criança batendo panelas e frigideiras juntos. Então feche os olhos e use sua imaginação” escrevia Roger Ebert(1942–2013), crítico de cinema norte-americano em um de seus textos sobre o novo filme “Transformers: A vingança dos derrotados” (2009). Roger, que sempre possuía uma boa dose de comédia e até mesmo de acidez em seus textos, é um modelo da imagem dos críticos antigos, sempre bem vestido, com textos publicados nos grandes jornais, o pesadelo dos estúdios de cinema e diretores, que aguardavam o resultado no dia seguinte.

Com sua origem na França, a crítica cinematográfica traz como seus percussores Louis Delluc(1890–1924), Riccioto Canudo(1877–1923), Jean Epstein(1897–1953) e outros, que nessa época, vão ver o cinema apenas com um modo de entretenimento, sendo que somente a partir do século XX se tem a crítica apresentando características que conhecemos hoje.

O papel do crítico de cinema é muito maior do que somente escrever um texto dizendo se um filme é bom ou ruim. Ele, a partir dos seus estudos e principalmente, sua bagagem cultural, vindo de inúmeros filmes assistidos e a paixão que tem pelo cinema, o coloca como norteador e de fornecedor de informações que levam o público a despertar um interesse para o debate acerca do filme.

A CRISE DO IMPRESSO

Imagem: Renata da Silva

Por muito tempo, o espaço em que a crítica mostrava-se presente era nos veículos impressos. Grandes nomes passaram por jornais e revistas como Walter da Silveira(1915–1970), grande crítico, que dedicavam uma parte de seu espaço para os textos sobre as análises e avaliações dos filmes. Hoje, esses meios perdem espaço na sociedade como veículo de informação pela expansão da internet, tendo ela se tornado uma grande divulgadora de conhecimento. Um meio que sente essa mudança é o jornal impresso, pois além de que o número de pessoas que leem jornais está diminuindo, ele ainda tem de apresentar um conteúdo exclusivo que a internet não consiga trazer. A questão financeira também acaba por ser um problema não só para o jornal em si, mas também para o jornalista, que antes exercia sua função como tal, mas que agora é colocado para escrever sobre cultura, críticas e outros assuntos para cobrir os espaços que faltam nos jornais. Esse já e uma característica do novo crítico. Antes era uma pessoa paga para escrever apenas críticas, hoje é alguém com algum conhecimento na área que, exercendo outra função além dessa, também tem de escrever certos assuntos específicos.

Imagem: Renata da Silva

O FORMATO DOS NOVOS CRÍTICOS

Com a internet, o acesso às informações ficou muito mais facilitado. Não somente isso, mas o acesso a filmes que podem ser vistos, baixados ou comprados online despertou ainda mais o interesse das pessoas nessa arte. Algumas delas vão além de somente assistir os filmes, pois vendo a internet como um espaço de expor suas opiniões, começam a exercer um trabalho como críticos de cinema, escrevendo em sites e gravando vídeos para o Youtube, que acaba por fornecer aos que acessam, mais variedades de visões sobre determinado filme, levando ao aumento do debate em torno dele.

Boa parte desses novos críticos possuem uma linguagem bem diferente dos de antes. Falam de um modo mais solto, coloquial e, utilizando-se de humor para prender a atenção do seu público, aproveitam o espaço de liberdade que a internet proporciona, para dar informações técnicas, curiosidades sobre o filme e explorarem novas áreas como as séries e músicas, tornando seus canais e sites mais complexos. “Eu escrevi durante muito tempo críticas ao invés de gravar as críticas. É totalmente diferente, é uma linguagem diferente, você está usando mídias diferentes. Uma mídia é escrita, outra mídia é gravada por áudio, então é uma forma de se expressar diferente, é uma linguagem diferente, atinge um público diferente. De longe, gravar vídeos tem atingido muito mais as pessoas . Enquanto eu recebia um, dois comentários por texto, recebia um e-mail por ano, é totalmente multiplicado por vinte isso no Youtube”, comenta Bruno Albuquerque, crítico de cinema e dono do canal Clube de Cinema de Duas Portas.

Alguns canais começam pequenos, sem expectativas de grande retorno, mas no momento em que o público demonstra uma satisfação pelo conteúdo apresentado, os donos começam a ver vantagens até mesmo financeiras e, de apenas um canal no Youtube pode sair um projeto de uma nova empresa de criação de vídeos, curta-metragens, até mesmo propostas de empregos para trabalhar em outro local, tornando esses indivíduos até então desconhecidas em novas referências na internet, sendo até mesmo convidados a participar de associações de críticos como a ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), que mesmo sendo uma organização recente, mostrou um crescente número de novos membros de diferentes regiões, formações e espaço de atuação.

Gabriel Amarantes sobre o formato da nova crítica
Imagem: Renata da Silva

O DIPLOMA NA INTERNET

Até mesmo no jornal impresso, não é necessário o diploma na área de cinema ou de jornalismo para atuar como crítico. O que influencia no bom trabalho de análise é o conhecimento, curiosidade e um currículo extenso de filmes assistidos, dos mais variados gêneros e nacionalidades. Isso vale também para pessoas que atuam em sites e canais no Youtube que trabalham com essa área. A pessoa até pode não ter nenhuma formação acadêmica, mas se é alguém que demonstra grande interesse e paixão e que consegue trazer uma análise profunda e original sobre alguma produção cinematográfica, o meio de comunicação não irá tirar o grau de relevância de sua crítica. “Tem críticos de cinema muito famosos que se você lê um trecho (dos seus textos) você não aprende nada de cinema, mas você vê que a pessoa é inteligente, ela escreve muito bem, mas ela guarda esse conhecimento pra ela e não transmite. Não só tem de ter o conhecimento mas ela tem de transmitir, passar o conhecimento pro público e incentivar o debate”, explica Bruno Albuquerque.

Porém, trazer um novo ponto de vista não é somente apresentar a opinião pessoal, sem embasamentos, referências ou pontos técnicos. Saber trabalhar com uma linguagem que forneça ao mais variado público o entendimento, levantando questões mais sérias e detalhes técnicos, só é possível com estudo e entendimento na área do cinema. O que não deve acontecer é a pessoa que trabalha como crítico se especializar somente em um gênero de filme, saber tudo sobre ele e depois querer opinar sobre outro gênero que não conhece muito. Ele tem de perceber que cada gênero possui suas características já impostas e que se mantém de uma maneira e estrutura diferente dos demais.

Comentário de Camila Vieira, crítica da ABRACCINE sobre a formação do crítico

A QUESTÃO MERCADOLÓGICA DOS NOVOS ROSTOS

Uma indústria que vê com bons olhos esses novos críticos da internet é a cinematográfica. Empresas como Hollywood, no momento em que vão lançar algum filme, fazem uma jogada de marketing simples, mas prática. Em vez de investirem em publicidade em um novo filme, com cartazes, vídeos de propaganda, produtos personalizados e outdoors, preferem convidar um youtuber ou dono de um site famoso de cinema para passar alguns dias em Los Angeles para que ele possa entrevistar parte do elenco do filme. Claro que essa pessoa em certos casos se torna propicia de que quando ela assistir ao filme e for fazer sua crítica não irá falar mal da produção, apontar erros gritantes ou a péssima atuação. É uma troca de favores implícita que muitas vezes acaba acontecendo, onde o dono do canal não vai dizer sua opinião sincera, e a indústria de cinema acaba por poupar dinheiro em questão de publicidade, que sai muito mais barato apenas pagando a viagem e pousada em um hotel para essa pessoa, que ganhando certos benefícios, faz a divulgação e incentiva seu público a ir ao cinema assistir ao filme.

A questão do poder de influência que esses críticos da internet possuem pode ser notado na crescente presença delas em certos locais, dividindo espaço com jornalistas e críticos de jornais, como as cabines de imprensa. Elas, que servem para que um filme, em uma sessão fechada antes da estréia, seja exibido para os jornalistas e críticos para opinarem sobre ele.

Porém, as cabines de imprensa não possuem mais a força que tinha antigamente de influenciar na bilheteria de algum lançamento, o que leva a uma perda da importância do crítico.

Camila Vieira sobre a perda da importância do crítico para o cinema

A IMPORTÂNCIA DO PAPEL DO CRÍTICO AINDA

Não vendo mais o jornal impresso como único espaço de divulgação de trabalho, certos jornalistas e críticos da área do cinema buscam na internet um meio de continuar a sua função, chamando a atenção de quem ainda busca uma crítica mais elaborada, mais profunda. Acaba sendo um trabalho a parte dessas pessoas. Ter seu próprio site, canal no Youtube que lhe oferece maior espaço e liberdade tanto na fala quanto na escrita, além de explorar meios como o podcast para conseguir atrair um novo público que se interesse pelo cinema.

Não se sabe qual será o futuro do crítico cinematográfico. Essa área passou por várias mudanças, tanto por parte da sociedade quanto pelos veículos de comunicação, sendo que as mais significativas foram dos anos 30/40 para os 60/70, em que se alterou do deslocamento de textos de ensaios da legitimação do cinema como arte para se tornar mais uma reflexão crítica de como conhecemos hoje. Claro que, a partir dos anos 90 com o surgimento da internet, a tendência era dessa área se alterar novamente. Mesmo com todos os avanços na tecnologia, novos formatos e linguagens de apresentar o conteúdo, os valores e importância que o crítico possui para o cinema e para o público ainda continua sendo o mesmo: incentivar o debate entre as pessoas, esclarecer pontos que o filme quer demonstra e dizer o que ninguém teve coragem de falar de uma péssima produção.


Acompanhe a galeria de fotos completa no pinterest:

https://br.pinterest.com/renata_starsea/cinema-e-o-cr%C3%ADtico/

Link das entrevistas na integra:

Bruno Albuquerque faz parte da aceccine (Associação Cearense de Críticos de Cinema) e dono do canal Clube de Cinema de Duas Portas

Cesar Zamberlan, crítico de cinema da ABRACCINE, professor na Universidade São Judas Tadeu(SP) e redator da revista Interlúdio

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