Um café?


Passou um café. Observou o fracasso pela janela, abriu a porta e convidou-o para sentar. Nada mais lhe atormentava, podiam dividir uma ou duas xícaras, alguma conversa fiada e risadas do passado. Conheciam-se bem, conviveram muito, eram sim, amigos de longa data. Mas pela primeira vez, ele não mais o temia, já achava graça do seu charme decadente. As pazes com o velho companheiro foi a experiência mais libertadora que havia conhecido, até então.

Colocou o casaco, pediu licença e fechou a porta. Andou pela garoa fria deixando seus rastros com a galocha pesada. Não sentia mais a necessidade de esconder seus trajetos. Ainda ouvia em suas lembranças a madrasta relinchando: Pablo, Pablo você precisa ser alguém na vida, lhe demos toda educação para isso. Jogou cada sílaba daquela memória no primeiro cesto de lixo que encontrou. Não mais pretendia andar sem seu velho companheiro, isso já estava decidido. Era ponto pacífico.

Entrou na velha conveniência do senhor Fernandes e não a julgou pela sua velha aparência, era ali que realmente desejava estar. Cumprimentou José, o antigo barman, e lhe pagou uma dose de uísque. Trocaram algumas informações sobre os jogos, conversaram sobre as poucas damas que ali frequentavam e acabaram disputando alguns minutos de xadrez. Comprou cigarros, meia dúzia de cervejas e bolinhos de bacalhau. Despediu-se dos compadres, desculpou-se pela rápida estadia e prometeu voltar. Tinha visita e não podia demorar.

Voltou sem pressa, observando a cidade hostil com olhar de garoto, sorria naturalmente. Ao chegar encontrou a casa quente, iluminada e o jantar na mesa. Comeram conversando sobre todos os momentos emblemáticos de suas vidas as gargalhadas. Beberam e fumaram na varanda fria, cumplices em seus silêncios.

_Vou embora, amigo. Obrigada por horas tão agradáveis.

_Por que tão cedo?

_Já é tarde demais. Por hoje chega. Nos veremos em breve.

_Mal posso esperar.

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