
Escrevo porque não sei sambar, ainda que dance pelos tamborins. Foi no bar do Genival que conheci João do Samba, me apresentaram como poeta. Nunca mais desgrudamos, feito purpurina de carnaval. Sonha em me colocar como destaque, mas sigo nos bastidores. Passo meses buscando o íntimo desse mundo, para fazer jus em prosa a tal vida dançarina e minha escrita virar refrão do choro em melodia.
Após as tempestades de estio, seguimos construindo um cosmo de gigantes, tão pequenos que somos. Isopores que almejam encantar com seus tupis, pajés, curupiras e guaranis. Em cores de floresta ou brilhos de insetos, pequenos mascarados cobrem o cinza do asfalto. O universo se assusta com o grito da cuíca, requebra sem perceber que é ele quem melhor sabe sambar.
Julião tomou as dores do compadre Amauri, sobre Luzia pé de anjo ter virado o destaque da bateria. São muitos companheiros que não param de assobiar para a mais bela formosura em ritmo de Odoyá. Cabelos pela cintura e corpo todo em ouro, faz charme em salto alto e prende toda a arquibancada num fascínio desmedido.
Quinzinho se fez adulto, no mundo encantador, pois desde menino corre da escola para o treino da bateria. Que seja árdua, porém feliz, a responsabilidade de comandar os passos das baianas, mestre-salas e de Luzias.
O tambalão se faz de surdo no silêncio do seu grave, vibrando sua pele e dando pulso ao cordão. Dona Odete se mantém firme em quase um centenário, coloca agulha em linha melhor que moça nova. Alinhava aqui e lá — saiotes, braceletes e bustiês no próprio corpo das morenas. Prega brilho em pano árido, fazendo de todas rainhas. Busca cores em suas cartelas de lembranças, que dariam repertório para montes de sambas.
Tião para de tomar pinga meses antes do desfile, ainda que fume como chaminé, diz guardar saúde para o espetáculo. Voz rouca que anuncia a festa para toda essa gente. Canta aqui e acolá, de miúdo a cada esquina. Mas é no microfone do sambódromo que passa recado para nação, que não parem de dançar ainda que dura seja a vida.
De cara para o vento, na chuva para se molhar, ninguém anda só. Somos donos da rua. É no tum-tum-tá do couro do pandeiro, é no zigue-zague do mestre-sala, no suor da dança em flor, nas saudações a deuses muitos, que chora de alegria a menina que não samba, mas está ali para sonhar. Que nunca acabe a festa, numa simples quarta-feira. Que dure a eternidade, essa vida em fantasia.