o ácido nas nectarinas
Era a primeira vez que sentia aquele aroma levemente ácido da nectarina. Não que nunca a tivesse provado, durante os meses de janeiro seu pai sempre trazia da rua até três unidades da fruta, além de laranja, mamões maltratados e até melancia de vez em quando, “porque é preciso ser um homem bom de cálculo para passar com aquela fruta toda redonda abarrotada de sementes pela porta de casa”, lembrava ela das brincadeiras que ele fazia para afastar as más notícias que às vezes rondavam pela vizinhança. Ouvia-se que janeiro era mês esperançado, mas era janeiro e ela — digamos que se chamava Betânia porque não a conheci tão de perto assim para saber — se encontrava incomodada com a lembrança que seu olfato guardava do Mercado El Cardonal, por onde havia passado no dia anterior logo após desembarcar na rodoviária de Valparaíso: escorria por sua memória o atrevido cheiro de peixes de água salgada mergulhados no gelo em decomposição, mesmo agora em que ela se encontrava absorta naquela Plaza Victoria sentada com três nectarinas no colo e lhe faltando três voltas no relógio para partir. De um tradicional banco de madeira e pés de ferro ela assistia às desengonçadas crianças que desembocavam de todas as travessas para correr pela praça sem motivos de fuga, apenas pela possibilidade de movimentar seus pequenos corpos de pequenos ossos e pequenos órgãos, pois a consciência ainda não tem tamanho de tormento e mesmo que o tempo invadisse os carrosséis levando melancias na cabeça nenhuma criança lhe daria a atenção que já tinham aprendido a dar para aquela reconhecível voz que chamaria até o fim de tarde: “meninos, entrem já que é hora do banho!”, gritava a avó — antes trabalhadora rural, mas talvez a neta não soubesse muito bem disso — quando a visitava no sítio e Betânia passava o dia desbravando os pés de jaca com o primo de quase mesma idade. Mas quando cheirou aquela fruta — penso que aproximadamente pela quinquagésima vez, mas não posso dizer com certeza — ao mesmo tempo em que sentia sua casca nada aveludada, antes do pai lhe veio à tona aquele perfume cítrico que sua irmã mais velha eventualmente usava e o esmalte de tom amarelado que ainda cobria algumas das unhas dela quando a viu pela última vez, no funeral da mãe.
Talvez seja pertinente dizer que a mãe de Betânia não gostava de nectarina. Nem de pêssego, irmão de veludo da família Rosaceae. Ela gostava das maçãs e suas pequenas sementes, além das unhas malfeitas da filha mais velha, pois isso lhe fazia permanecer imune, nem lá nem cá das difíceis decisões que só se obtêm com compostos inflamáveis como a acetona. Mas nem a irmã mais velha nem a própria Betânia sabiam disso. O pai, afinal, nunca levava maçãs pra casa. Em janeiro eram as nectarinas, fevereiro e março chegava com mangas, abril tinha bananas. Mas nunca maçãs. E os meses passavam assim porque a mãe cozinhava calada e comia calada, ditava os bons costumes à mesa, sorria para as filhas. Dentro dela, zunia um enxame de abelhas que não aferroavam nem produziam mel, “mas isso é tão sem importância”, pesava para si mesma a mãe com a colher dentro do mamão tirando fora todas as sementes.
Betânia, que embora não soubesse quase nada da história e dos pensamentos que rondavam a cabeça de sua mãe, havia nascido desconfiada de si e enquanto observava as crianças na praça chilena, às voltas com a acidez das nectarinas, pensava em Pablo Neruda. Ela estava ali por conta do aclamado poeta chileno — ainda que o atrevido cheiro de peixes de água salgada mergulhados no gelo em decomposição lhe confundisse as causas. Ela, que havia se tornado revisora de língua portuguesa e inglesa para fins financeiros, intrigava-se pela língua espanhola: sentia-se tanto próxima como distante das culturas hispano-americanas e um sentimento tão ambíguo não poderia passar desapercebido assim. Não para ela, que há poucos dias no lugar mais distante que já havia chegado, em outra cidade e em outro país, vinha sendo acossada por si mesma.
Era verão, e a claridade começava a queimar em seus olhos como as nectarinas começavam a queimar suas mãos. Mas Betânia não percebia. Sua atenção estava nos meninos da praça, na liberdade contida nos meninos da praça, no corre-corre tolhido das meninas da praça, na terra nos olhos das meninas da praça, na zombaria nas mãos dos meninos da praça, nas estátuas de bronze tão nobres que tudo veem mas nada fazem. Cairia ali sobre seu estômago um mal-estar prenunciado, excesso de suco gástrico no café do dia acompanhado de três cigarros. Pensou que deveria parar de fumar, lembrou-se de quando começou a fumar, afastou da memória seu primo de quase mesma idade criado pela avó mas agora formado engenheiro na melhor universidade do país, diziam os parentes. Deveria ser um homem bom de cálculo que não carregava o peso de nenhuma melancia nem suas sementes, ao contrário ou não provavelmente ardoroso admirador do Neruda que fazia odes às melancias e erguia uma casa em Santiago para Matilde Urrutia. “Matilde Urrutia”, pensou Betânia. “Quem foi Matilde Urrutia?”

A caminho para a estação rodoviária com queimaduras na memória e três nectarinas aguardando a força afiada dos dentes que seguram as lágrimas do lado de dentro do carro de seu pai — que era feirante e quase sempre cheirava a peixe — estacionado na frente daquele lugar de paredes amarelas que tão pouco havia pulsado suas artérias e Betânia já conhecia as ordens do cale-se, você é menina, senta direito, como assim não gosta de rosa, menina não pode subir em árvore, trouxe três nectarinas para as minhas três mulheres, eu não me importo que você prefira maçã se o que eu trouxe é nectarina é isso que você vai comer. O atrevido cheiro de peixes de água salgada mergulhados no gelo em decomposição retornara. Ao sentar em sua poltrona do lado da janela na quarta fileira do ônibus — acho que o número 03 já estava ocupado –, Betânia sentiu o alívio de quem segue rumo sem olhar para trás, mas sabia que as três voltas no relógio e as estátuas de bronze e as três nectarinas em breve voltariam a lhe atormentar. Enquanto aguardava o motorista, voltou a sentir a acidez das nectarinas a seus pés girando em torno de seus próximos passos. “E Delia del Carril, quem era?”, questionou-se.
Foi quando sentiu o ronco do motor do ônibus que a avó lhe colocava de volta para casa depois dos dias no sítio desviando dos pés de jaca e procurando os próprios chinelos que o primo de quase mesma idade vivia escondendo entre os cheiros de jacas que apodreciam. Era ali, pensou ela. Era ali que eu pertencia a mim mesma, com meus chinelos sujos e meus cabelos que tantas vezes foram chamados de desgrenhados pelos que carregavam os genes mais próximos. Era ali, naquele ônibus, que eu não tinha que atender a nenhuma expectativa, poderia chorar se assim quisesse, poderia acreditar na acidez das nectarinas, poderia sentir-me estrangeira de tantas falsas convenções à mesa posta e pertencer ao desencontrado, ao ponto no mundo que a ninguém pertence, ao pertencimento de mim que a nenhuma outra história lhe cabe, encontrando-me sozinha nas entranhas da terra que dão água nos olhos e mastigando essa mesma terra nos olhos das meninas da praça para completa digestão e dejetos. Porque ali, saindo de um ponto do território chileno para outro ponto de Pablo Neruda, o atrevido cheiro de peixes mergulhados no gelo em decomposição do Mercado El Cardonal ficara para trás. E eu mastiguei as três nectarinas com ganas de moer as três mulheres que não eram de si mesmas e descobri que queria mesmo era conhecer mais sobre Matilde Urrutia e Delia del Carril do que a Pablo Neruda. Porque eu deveria contar a minha própria história como elas deveriam ter sido apenas delas.
