Espaço

Espaço. Acho que minhas amigas mais apaixonadas pelo amor custam a acreditar que preciso de espaço. Um espaço habitado somente por mim — em companhia do Judas, meu gato, talvez. Elas me desafiam: dizem que quando um grande-amor cruzar na minha vida não vou mais precisar de espaço. Embora eu entenda o que tentam me falar, parece que elas associam espaço a isolamento e que, oras, ficar sozinha “tempo demais” é coisa-de-gente-triste. Como se individualidade e amor não pudessem dar as mãos. Pois eu as desafio a conseguirem ficar somente em sua própria companhia. Assim, por “tempo demais”. Ir ao supermercado, cinema, a um restaurante almoçar ou jantar no fim de semana, encarar um dia de praia e sol com, no máximo, fones de ouvido, fazer fogo na lareira, abrir um vinho, preparar uma refeição bem elaborada, passar a noite de sábado, viajar. E por aqui apenas começamos. A vida das mulheres solteiras não pode ser resumida em noites em claro na pista ou no bar com os melhores amigos do mundo.

Desafio, também, a se sentirem sozinhas — e estarem, mesmo, sozinhas — e sobreviverem a esta realidade. Sobreviverem ao vazio de não haver um colo no fim de um expediente estressante. Sobreviverem à pressão de quase todos os lados que agarra pelos pés as mulheres de 20, 30, 40, 50, 60, 70, 80 anos que não estão acompanhadas de um homem no churrasco da firma ou naquela excursão pra Buenos Aires (mesmo que o cara seja uma máquina de piadas preconceituosas ou não goste de trabalhar ou só pense em ganhar dinheiro. Ou tantas variações do mesmo homem-que-não-sou-obrigada-a-aturar. Um tipo de cara com falhas bizarramente passíveis de um “perdão conveniente” — para algumas pessoas, é claro — pois ele é quase um milagre por ter aparecido na vida dela e conseguido, até-que-enfim, movimentar aquele status de relacionamento que incomoda tanta gente, ironicamente, por sofrer impactos esparsos).

Sabe?, eu já amei. Sei da sorte e da raridade que é poder estufar o peito pra dizer isso — até, por que, não são poucos os anos de relacionamentos frustrados que podiam ser tudo, menos amor. Começou lá na adolescência, quando eu trocava facilmente as festinhas da turma por madrugadas de Friends ou filmes de drama e de suspense, regadas a pipoca doce e guaraná. Às vezes, acredito que minha missão na vida é profissionalizar o status de solteira. Portanto, para honrar as exceções desta trajetória majoritariamente singular, vou até repetir: eu já amei. Uau. Já me dividi em outra pessoa com outras pessoas. E, olha, valeu cada faísca provocada por estes choques apaixonados. Amar alguém que te ama de volta, planejar o nome dos filhos que nem existem (se isso for um desejo do casal, logicamente), dividir a conta da cerveja, o maço de cigarros, a cama nas noites de calor abafado que, ainda assim, não te desmotivam a continuar entrelaçada com aquele ser pelo qual tu nutres tanto carinho. Nada substitui isso. Concordo. Defendo. Só que, assim… Os relacionamentos, assim como aquela lua cheia belíssima, também têm um lado obscuro. Ele só é silenciado e omitido, hoje, pelas redes sociais.

Porque é impossível que o casal heteronormativo e descolado com aquela foto maravilhosa com o cachorro na rede da casa de praia tenha problemas. Porque, afinal, é o que a tal sociedade espera da gente — sim, de nós, mulheres. Cada Natal pesa de maneiras diferentes nas minhas costas. De novo, ela sem namorado. Ela, a incompleta. Rebelde-sem-causa. Respondona. A que espanta os homens pela personalidade ríspida. Que poderia mudar um pouco a conduta, mas só pra atrair os caras, nada “demais” — apesar de não apresentar traços de um caráter duvidoso. A coitadinha. Ela, a sozinha. O tom carregado de piedade que dão à minha solteirice chega a ser cômico. Minha mão coça de vontade de apontar pra cada um que me lança olhares com ares velados de uma suposta superioridade e lembrar algumas verdades, realmente, dignas de pena que enredam suas vidas. Porque eles estão certos em relação a mim, mas errados sobre o que me move. Provavelmente viverei, até os últimos dias, incompleta — pois, pra mim, existir não terá sido simples e não por ter vivido emocionalmente solteira ou acompanhada. Sozinha. Uma parte de mim sempre será só minha. Rebelde, sim, com causa, também. Coitadinha? Acho brabo. Bora olhar pro próprio umbigo, né, povo?

Não decretei o fim das atividades românticas na minha vida, nada disso, embora no meu tempo comigo eu tenha aceitado que exijo bem mais que uma companhia pra dias de chuva — a gente aprende rápido que não se morre por passar dias de chuva sozinha. Na solidão de ninguém pra levar nos encontros promovidos pelas amigas que namoram e convidam as solteiras com a deixa “se quiserem podem levar alguém”, muita coisa mudou no meu mundo — pra melhor. E não precisei de um macho-alfa dormindo e acordando comigo pra que isso acontecesse... Que legal se houvesse, né? Coisa boa ter com quem compartilhar e multiplicar lições. E, pra mim, é assim que deve ser: uma coisa boa. De cumplicidade, de respeito, às claras. Desobrigada. Construtitva. Que floresça em seu tempo. Que não tente roubar meu espaço.