rosa-velho

a arma na mão esquerda apontando para o alvo, minha cabeça. a escuridão da madrugada atravessando a janela. as luzes em silêncio. a porta fechada. uma bala no tambor.
a cama feita no chão, especialmente para receber meu corpo sem vida e envolvê-lo em seus lençóis rosa-velho; um rosa-velho que me devolve à tranquilidade sequestrada pela ansiedade, a covarde — onde tudo começou. nele alcanço a versão mais pura de mim que consigo lembrar.
o cigarro aceso. a solidão, típica. a coragem que parei de buscar para viver encontrada à beira do abismo. minha vida em frames. um impulso.
sou um clichê que nunca teve sorte para vencer e pretende romantizar a própria morte, como uma chance de escapar da derrota — mesmo com a luta em andamento. poética. hipócrita.
eu não sabia atirar, contudo, qual a dificuldade em pressionar o gatilho? palpito que muita gente não tentou enfiar uma bala nos miolos mais de uma vez.
agora, eu estava nua de tudo.
o tempo do mundo congelado à minha volta. todas as tristezas reprimidas. todas as palavras caladas. as feridas abertas. na minha vulnerabilidade carrego o que me sufoca. sustento, alimento. cada medo e frustração. eali, pela primeira vez, em não sei quanto tempo, senti que era eu.
apostei comigo que a roleta giraria contra mim. e me joguei aos segundos mais longos que já vivi. no silêncio de saltar rumo a lugar nenhum, meu peito se movia como os batimentos de um anfíbio.
da arma expulsei apenas um vazio. o nada. e meu corpo desabou num grito... caí viva em meu leito de morte. trêmula, indefesa. suando frio. desesperada. a arma em algum lugar do escuro. os olhos arregalados. e a cabeça, sobre o rosa-velho, a lamentar e pensar no meu azar.
acordei. olhei em volta. toquei em meus braços. fui fazer café.
