É campo minado

A ira é um sentimento pulsante e característico das torcidas organizadas durante as partidas futebolísticas

Os estádios de futebol são símbolo de festa, democracia, paixão e fidelidade, tendo como protagonistas as torcidas que defendem e acompanham o clube de escolha. A preocupação com os resultados do time deixa os nervos aflorados. Cada grito, pulo ou canto, no entanto, significa o empurrão necessário para a vitória. Essas emoções nem sempre são controladas e, muitas vezes, acabam ocorrendo casos violentos tanto para torcedores, quanto para atletas e demais participantes.

Por ser o esporte mais popular no país, o futebol provoca grande mobilização das pessoas. O estádio acaba sendo um local propício para a catarse de qualquer sentimento latente. O doutor em Educação e pós-doutorando em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Gregório Grisa destaca que o fenômeno da violência relacionado às torcidas organizadas, que cresceu dos anos 90 para cá, não se deve a reações pessoais de alguns, mas é parte da dimensão cotidiana de violência dos grandes centros urbanos na sociedade brasileira contemporânea. Há quem discorde. Na visão do conselheiro do Internacional pelo movimento O Povo do Clube Felipe Chagas, o estádio é o local onde, muitas vezes, os torcedores esquecem os problemas ou simplesmente descontam suas insatisfações. “A ira dos torcedores vem de situações vividas diariamente. Ele pode ter tido um péssimo dia, perder a partida, ouvir flauta de um rival e perder a cabeça. O futebol é um escape na sociedade”, afirma Felipe.

Para o presidente da Torcida Independente Máfia Tricolor do Grêmio, Cristian Garcia, provocações entre torcidas adversárias não são premeditadas e, inclusive, fazem parte da emoção do jogo. “Desde que não sejam acompanhadas de comportamento violento, são saudáveis e fazem parte do futebol. Sem isso, perde a graça, vira apenas um jogo, e o futebol é mais do que isso”, destaca Cristian. O primeiro mandamento da Máfia Tricolor, caso aconteça de uma torcida adversária partir para a agressão, é defender o patrimônio do clube, da torcida e também defender os demais torcedores do Grêmio.

O futebol gaúcho possui marcas de episódios violentos envolvendo torcidas organizadas. Durante o Gre-Nal do Campeonato Brasileiro de 2006, em meio a brigas com a Brigada Militar, torcedores da Geral do Grêmio incendiaram os banheiros químicos dispostos no fosso do estádio Beira-Rio, sendo necessária a intervenção dos bombeiros, que foram recebidos a pedradas. Em outro caso mais recente, de julho deste ano, torcedores colorados, insatisfeitos com a derrota do time para o Corinthians, invadiram o gramado durante a partida e quebraram os vidros que dão acesso ao estádio do Internacional.

Mas a ira envolvida com o esporte não ocorre apenas entre torcidas. Como relata o ex-jogador da Chapecoense Carlos Arrue, a violência dentro de campo é uma prática comum que passou a ser inibida pela tecnologia nos gramados, como microfones e câmeras. “Lembro uma vez na Serra, jogava na categoria juvenil ainda. Depois de uma chegada mais forte no jogador adversário, o técnico deles gritou para o time vir para cima de mim. Logo depois disso, a situação era de um campo de batalha. Os dois times brigando”, relembra Carlos.

A competitividade é um agente motivador na sociedade, sendo difícil lidar com a frustração da perda de um jogo, por exemplo. Muitas pessoas tomam as derrotas e as decepções esportivas como algo extremamente relevante na sua vida social, o que produz raiva e outros sentimentos que podem desencadear agressividade. As torcidas organizadas protagonizam esses atos em função de concentrarem as pessoas mais engajadas na paixão clubista. De acordo com o sociólogo Gregório Grisa, isso se deve ao fato de que fazer parte de uma torcida organizada constitui um padrão de sociabilidade poderoso, que se torna um estilo de vida. “Isso influencia outras dimensões do cotidiano do torcedor, interferindo e determinando seu comportamento”, salienta.

Segurança nos jogos

Com a preocupação em proteger os espaços públicos e a população, a Brigada Militar acaba participando de eventos como as partidas de futebol, com o intuito de prevenir um possível tumulto fora dos estádios. O terceiro sargento da BM Roberto Kondach analisa que as torcidas organizadas, na sua essência, são o símbolo do time, e que deve-se ter isso em mente na hora de trabalhar em eventos com essa característica. “O sentimento pelo esporte é válido, desde que não vire sinônimo de irracionalidade”, comenta Roberto. Para alguns torcedores, a presença de policiamento não representa segurança. “É uma arbitrariedade semelhante ao tempo da ditadura, eles não cumprem o que consta no estatuto do torcedor e inibem o estado de alento dos participantes”, enfatiza o presidente da Máfia Tricolor, Cristian Garcia. Já o torcedor do Internacional Felipe Chagas acredita que a relação entre BM e torcida é “uma bomba-relógio”.

O sentimento coletivo de confraternização é prazeroso e importante, e, ao participar de atividades sociais como o futebol, desenvolve-se senso de identidade, de afetos e amizade, que são valores importantes para os indivíduos. Nesse caso, a disciplina e o engajamento são virtudes reconhecidas na medida em que mostram o nível de paixão das pessoas pelas instituições. “Penso que determinado grau de dedicação é saudável como atividade cultural de socialização, todavia, a diferença entre essa dedicação e o fanatismo que oblitera outros aspectos da vida em função de apenas um (o futebol) não me parece salutar e não deve ser incentivado”, finaliza o sociólogo Gregório Grisa.

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