Mulherzinha

Um estigma superado


Uns 10 anos atrás eu tinha um blog chamado Mulherzinha, no IG. Influenciada pela menina do didentro e dos pastéis de vento, Ione Moraes — que usava bastante o termo antes de virar modinha e de, mais tarde, vir a dar nome a um gênero literário -, batizei assim o meu "diarinho virtual" porque me encontrava em transição: era pleno retorno de Saturno e eu acreditava muito nessas coisas (estou repensando seriamente o papel da astrologia na minha vida, apesar de continuar hábil na técnica de adivinhar o signo da pessoa pelo beijo). Ter que decidir o que eu ia ser pra sempre?! Crise, é claro.

Além disso, estava na luta pra sair da casa dos meus pais e na batalha pra deixar de lado um emprego muito promissor, porém coxinha demais. A vontade de morar fora do Brasil, sem achar que isso fosse possível, me devorava. Era a despedida da cocota que eu era e o olá à mulher que eu viria a me tornar. Uma mulher em desenvolvimento, apenas. Nunca me denominei mulherzinha por me achar ralé, desmerecedora de valor (embora a ideia de relacionar valor com gente me incomode) ou vulgar.

Naquela época, eu vivia muitas experiências em termos de relacionamento, vida profissonal, amizades. Foram inúmeras definições práticas e a confirmação de indefinições eternas. Um período muito rico, criativamente falando. Eu estava ali me moldando, procurando o meu lugar no mundo, crescendo, fazendo terapia, estudando e o blog servia como uma válvula de escape para aquela montanha-russa, além de ser um passa-tempo divertidíssimo. Fora isso, tinha um namorado artista que ilustrava alguns dos meus delírios e me desafiava, tanto intelectual quanto emocionalmente, o tempo todo, e isso gerava muito material. O blog era um bom lugar para ruminar o que eu ingeria, assimilar, compartilhar as coisas da vida, trocar ideias com gente que pensava do mesmo jeito e ser xingada por quem não me entendia ou não concordava comigo. Não havia facebook, mas eu era bem curtida. Fazia drama e fazia graça de tudo, escrevia todo dia. Tinha leitores, fãs, haters, fiz amigos e inimigos.

Não posso negar que fui um pouco estigmatizada pelo nome que escolhi para o blog. Ao longo dos anos que se sucederam, em vários episódios me vi bem “mulherzinha”, só que no mau sentido. Uma falta de amor próprio, um medo, uma culpa sem fim, uma covardia por vezes enorme se apossava do meu ser em diversas circunstâncias. Em certas fases, cheguei a me sentir menor do que qualquer um, pequenina, invisível. Uma mulherzinha bem inha, mesmo. Não que eu fosse vilã, mas fui fraquinha que dói. Vilã de mim mesma, eu diria. Foi um longo período de baixa autoestima. Então resolvi brigar com a mulherzinha, inclusive com as partes boas dela, e quis me tornar um mulherão. Conclusão: acabei ficando valente demais, dura demais. Não masculina, mas tá, talvez um pouco amarga sim, admito. Demorei bastante tempo pra me livrar do estigma que eu mesma me impus, e da armadura que vesti depois disso. Foram muitos reais gastos em diversos tipos de terapia, yoga, workshops de meditação, retiros, mapa astral. E não é que a resposta era grátis e, acredite, estava mesmo dentro de mim, como todo mundo diz?

Este ano novo marca um grande momento nessa minha transformação. Todas as minhas buscas espirituais estão convergindo em um único ponto, numa interpretação muito pessoal e positiva. A vida profissional está prestes a dar um salto quântico e minha eterna busca afetiva, essa caravela desgovernada, embora ainda à deriva, dá sinais de querer ancorar, mesmo num oceano tão instável e imprevisível. Acho que amoleci um pouco. Adociquei. Talvez eu esteja no ponto entre a mulherzinha que ficou pra trás e o mulherão de aço que me impedia de sentir. Acho que sou, finalmente, uma mulher, com todos os prós e contras. E isso é uma delícia.