Quadradinhos falantes

A gente não gosta da pessoa. A gente gosta de um quadradinho com uma foto. A gente não gosta do que a pessoa diz. A gente gosta da caixa grande com texto, imagem ou vídeo que o quadradinho com a foto posta para que todos os outros quadradinhos saibam que é aquilo que ele pensa ou, ao menos, pensem que é aquilo que ele pensa. Quando a gente lembra de alguém, não é da pessoa que a gente lembra, é do quadradinho. Quando a gente lembra de uma conversa, a gente não lembra do tom de voz. A gente lembra das letrinhas que se repetiam na palavra pra dar mais ênfase, se elas vinham em maiúsculas ou minúsculas, acompanhadas de reticências, mil exclamações, uma interrogação ou ponto final. Quando a gente lembra da reação da pessoa quando a gente contou alguma coisa, a gente não lembra da expressão do rosto, do olhar irônico, da timidez corando a bochecha, da cara de paisagem. A gente lembra do joinha, do smile, do emoji do Snoopy envergonhado. A gente não tem amigos. A gente tem quadradinhos falantes que conversam com a gente por caixinhas de texto menores e que combinam coisas que nunca acontecem porque, olha que coincidência, a gente também é só um quadradinho falante. A gente não é gente.

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