Trinta e oito e meio, Maria Ribeiro e eu

Trinta e oito e meio. Livro de Maria Ribeiro.

Corro na capital do estado e, pra minha ausência de surpresa, a única livraria da cidade não vendia Maria Ribeiro.

Obviedades de livrarias puro marketing (o corretor escreveu puto, juro que não entendi o porquê. Tá, entendi, o corretor sabe das coisas).

Tristeza de quem vive em feudos, mas a internet salva.

Pedi Trinta e oito e meio pela Saraiva. Um dia, dois, três, dez. Chegou!

Comecei a lê-lo na mesma noite em que o retirei da caixinha de correios da casa dos meus pais (até hoje recebo correspondências lá, é o meu pezinho na vida que não volta).

De início, uma estranheza… Comecei a ler as primeiras crônicas e senti uma espécie de decepção com o conteúdo do livro. Era diferente daquilo que eu esperava.

Eu conheço a escrita da Maria Ribeiro, eu leio-a todas as semanas, eu a vejo falar em todas as redes sociais e a assisto tiete a cada vez que aparece na televisão e o livro… o livro era exatamente Maria sendo Maria.

Maria Ribeiro.

Toda expectativa é um pouco burra. E é óbvio que Maria jamais fugiria ao script de ser quem é para satisfazer quem quer que seja. E, pior, nunca a quis diferente mesmo.

Mas, aí, o que percebi é que, a cada palavra, frase, parágrafo, página, texto, o que mais me provocava um incômodo castrador era o quanto Maria, sendo Maria, era eu.

Taí. Era isso. Narciso rechaça tudo o que não é espelho e eu me assusto com tudo o que é.

E era eu, ali, em cada movimento.

Estou falando aqui sem pretensão. Ou com, também. Sei lá.

Certo é que Maria escreve como eu. Eu escrevo tal como Maria Ribeiro: aquele monte de informações aleatórias de uma alma que precisa se comunicar e que não se sabe dizer como aquela ansiedade toda, de beijar o mundo de língua, consegue assentar para se transformar num texto.

Mas transforma.

E, ainda que dê voltas, passando por todo corpo humano, ela para e repousa, bem no coração.

Chamo carinhosamente de síndrome de dislexia afetivo-literária: aquela que faz Maria começar no trauma de seu corpo nu e sua primeira transa com amor pra terminar num nudes de Carolina Dieckman.

Inclusive, taí outra coisa em que Maria sou eu: ela escreve sobre si. Sua vida, e rotina, e família, e amigos, e gostos, e desgostos e chão. E isso é tão vida real que primeiro assusta pra depois encantar ~ avassaladoramente.

Aliás, Maria sou eu quando elogia os amigos em hipérbole e gasta com eles as lentes bonitas e otimistas, sobrando para si mesma apenas uma visão realista do que é. Mas sem dramas. Ou com, às vezes.

Maria vê as pessoas e, vendo-lhes, as enxerga e nisso – dentre tanto mais - ela é tão melhor que eu.

Quantas vezes já vi alguém falar sobre Wagner Moura ou Rodrigo Hilbert? Inúmeras. Perdi as contas. Mas nunca, nunca, nunca como Maria.

Ao falar sobre coragem, em “substantivo próprio”, Maria já me arrancou uma respiração profunda, daquelas que oxigenam do cérebro à alma. E quando fala cruamente da relação entre a angústia e a vida, Maria me incluiu nesse mundo do qual, incontáveis vezes, não me senti parte, diante de tantas vidas perfeitas de pessoas felizes, bonitas e bem resolvidas (tá, o Twitter salva).

Mas foi “no meio do mato” que Maria me dobrou em definitivo. Ali, naquela casa, naquela página, no meio do livro, ela me pôs de joelhos pra terminar de devorar sua obra como quem come um bolo de chocolate com calda de brigadeiro recém saídos do forno.

Maria sou eu no medo, na tristeza e na urgência do crescer, envelhecer e amadurecer, estes verbos que dançam de rostinho colado nas nossas existências, mas são tão distintos entre si.

Eu sou Maria na mágoa contida do pai ausente, curada pela morte, remediadora do irremediável e no assustador e confortador (ao mesmo tempo sim) conhecimento de si e de seu pior lado, do qual falamos lixando as unhas.

Maria sou eu na falta de romantismo com a vida e seus galhos, mas no excesso de amor por cada folha, cada uma.

Eu adoro Maria Ribeiro.

Artistas que assumem publicamente sua posição política, na contramão do mundo e contra a força opressora do capital e das mídias que muitas vezes pagam seus salários, têm o meu respeito.

Mas a Maria tem mais, porque ela gosta de brusinha também. Tipo eu com Mc Donalds.

Ela é aquela pessoa da TV que você sabe que seria amiga de levar em casa, mandar print de conversa com o paquera no WhatsApp e meme idiota inbox pra sorrirem juntas, onde quer que estivessem nesse mundo.

Bastaria um único encontro, uma única conversa.

Maria Ribeiro é minha amiga. Ela apenas não sabe.

E o seu livro é lindo e é capaz de você se encontrar em muitas paginas dele.

Só leia.