Forrest Gump | Análise
Título original: Forrest Gump
Título no Brasil: Forrest Gump — O contador de histórias
Ano de lançamento: 1994
Diretor: Robert Zemeckis
Estrelando: Tom Hanks, Robin Wright, Sally Field e Gary Sinise

Atenção! O texto contém spoilers. Se você ainda não assistiu o filme, vá imediatamente assistir, depois volte aqui e leia a análise. Se não liga para spoiler, carry on!
Eu gosto muito desse filme e já o vi diversas vezes, porém, via sempre quando muito jovem, então não lembrava de diversas coisas legais, mas agora, já adulto, assisti novamente e percebi diversas delas.
A trilha sonora do início já dá o tom do filme. O filme te mantém focado na tela durante todo o tempo, misturando drama e humor na medida certa, sempre com aquela pitada de protesto no plano de fundo. A trilha ajuda muito o diretor a contar a história e fazer algumas sátiras de forma bem discreta e, às vezes, imperceptível para espectadores menos atentos.
Frases como “a vida é como uma caixa de bombons, você nunca sabe o que pode encontrar” mostram que diálogos e discursos serão o ponto forte do filme. Mesmo estando abaixo da média no que tange a capacidade intelectual, Forrest tem diálogos muito interessantes ao longo do filme, principalmente por sua perspectiva inocente e, por isso, sempre sincera das coisas.
Esse é um ponto interessante do filme e uma boa ideia do diretor, pois através dessa perspectiva inocente e ingênua de Forrest - que serve como um filtro, ele usa o personagem como um canal para abordar temas delicados e pesados de forma mais branda, como pedofilia, racismo, corrupção, entre outros. Como eu disse, pra mim, essa é uma das melhores coisas do filme, ver coisas que contadas pela perspectiva inocente de Forrest ganham um aspecto cômico, leve e, por vezes, positivo mesmo sendo negativo.
O filme toca em questões como diversidade, acessibilidade e preconceito logo no começo. Principalmente apresentando as dificuldades físicas e cognitivas de Forrest. Um ótimo exemplo é a restrição de vagas na escola pela medida do QI, no qual o do Forrest está abaixo da média aceitável pela escola.
Também no início do filme, o diretor apresenta algumas situações que pautam a história da personagem Jenny e até mesmo do próprio Forrest, por este manter Jenny em sua mente e coração ao longo de todo o filme. Jenny e suas irmãs passavam por constantes abusos do pai depois que a mãe delas havia morrido, fazendo com que Jenny até mesmo desejasse a morte, como mostra a cena em que ela, fugindo do pai, chama Forrest para orar com ela, pedindo a Deus que a fizesse voar como um pássaro para o céu. Por se tratar de um tema forte, o diretor — como disse anteriormente — procurou suavizar o relato contando tudo pela ótica ingênua de Forrest, que descreve o pai das meninas como um pai carinhoso, que gostava de beijá-las, tocá-las, etc., mas que mesmo assim deixa claro que o relato é assustador.
Outra coisa interessante é ver o diretor inserindo o personagem em fatos históricos importantes da história americana, como quando os negros receberam permissão de frequentar uma universidade que só permitia brancos, mais uma vez abordando o tema do racismo. Ou quando o time de futebol americano universitário conheceu o presidente Kennedy; quando Elvis, o Rei do Rock, se hospeda na casa da mãe de Forrest e aprende um de seus passos de dança mais famosos com o próprio Forrest.
O lado patriota dos americanos também está presente no filme com o alistamento militar de Forrest, momento em que ele conhece dois importantes personagens na história do filme e do próprio personagem, seu melhor amigo Bubba e o tenente Dan. Além disso (e paralelo a isso), o filme faz duras críticas à política americana e à guerra do Vietnã, com o diretor mostrando isso de algumas formas cômicas, como quando Forrest mostra o traseiro para o Presidente americano ou quando ele dá um discurso num protesto ativista na capital do país com seu microfone desconectado.
Jenny tem um papel fundamental no filme e transmite uma mensagem muito importante. Mesmo com suas dificuldades cognitivas, Forrest conseguiu crescer, se desenvolver e se tornar tudo aquilo que quis e que sua mãe sonhara — até mais. E isso se deve principalmente pela luta dela em educar o filho e criá-lo como uma criança normal. Todo o esforço e amor despendidos por ela tornou Forrest no que vimos ao final do filme. Já Jenny não teve a mesma sorte. Perdeu a mãe muito cedo e cresceu sendo abusada pelo pai. Quando conseguiu se livrar judicialmente do monstro, foi morar com a avó que vivia em condições absolutamente precárias. Essas foram suas bases e a partir disso, sem ter fundamentos familiares e ter crescido basicamente sobrevivendo, Jenny viveu uma vida de tentativas e erros, sempre tentando achar seu lugar. Quando finalmente percebeu que seu lugar era ao lado de quem sempre se dedicou a ela, já era tarde. Mas não podemos culpá-la de todo, afinal, ela não teve os fundamentos básicos para uma pessoa crescer e viver uma vida feliz e estruturada, independentemente de suas escolhas e estilo de vida.
Forrest Gump é um clássico. O que é um filme clássico para mim? Um clássico é um filme com mais de 10 anos e que é, no mínimo, muito bom. O que para mim é um filme muito bom? É um filme que em algum aspecto te causa algum impacto, seja numa atuação, produção, história, plot, direção, na mensagem que este transmite ou até na forma como o filme se conecta com você (se é que houve conexão).
Um dos aspectos que eu mais gosto no filme é justamente a mensagem que ele me trouxe. Pelo menos para mim, o filme se conecta com vários momentos da minha vida, o que tornou a experiência de assisti-lo melhor ainda. As características de Forrest que o tornam especial também fazem com que ele desenvolva uma lealdade muito grande, como demonstrado com as pessoas queridas que conheceu durante a vida (Bubba, tenente Dan, sua mãe e seu grande amor, Jenny) e essa lealdade foi uma das pontes que me conectaram ao filme, pelo fato de que um dos aspectos mais importantes que eu considero em alguém próximo é justamente a lealdade.
Com 13 indicações ao Oscar — vencedor de 6, Forrest Gump fez um estrondoso sucesso, que ajudou a alavancar a carreira do “monstro” Tom Hanks. Ele já havia ganhado um Oscar por Philadelphia (1994), mas foi com Forrest Gump que realmente ganhou maior notoriedade — além de ter ganhado outro Oscar. Depois disso, foi um caminho de ascensão até se tornar uma lenda do cinema — sendo até eleito vice-presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, em 2009.
Robin Wright, Jenny, também já tem bastante estrada no cinema, mas seu papel de maior destaque provavelmente é com seu atual trabalho, a personagem Claire Underwood, da série da Netflix, House of Cards (2013).
Sobre o diretor, Robert Zemeckis dirigiu diversos filmes de destaque como Náufrago (Cast Away, 2000) e o próprio Forrest Gump (1994), mas já era conhecido do público, pois alguns anos antes dirigiu a trilogia De Volta para o Futuro (Back to the Future, 1985/1989/1990).
Para concluir, uma curiosidade. O filme não foi bem recebido por Winston Groom, autor do romance homônimo que inspirou o filme, de 1986. O motivo é que o filme ficou bem diferente do livro. A versão do personagem principal mostrada pelo filme é absolutamente mais branda do que a retratada no livro, provavelmente para não escandalizar a audiência. Para não me estender, vou apenas frisar que vale a pena dar uma conferida no livro, caso você tenha gostado bastante do filme, e se interesse em ver as diferenças. Você pode consultar também esse artigo do Medium sobre as razões do autor do livro não ter gostado do filme.