A verdade sobre a Reforma do Ensino Médio: poucos se interessam por Filosofia e Sociologia.

Vamos falar sobre o novo Ensino Médio. Antes de mais nada, não sou educador nem qualquer especialista em educação. Tudo o que eu escrever aqui é com base puramente empírica e em observação. Ponto.

Agora vai um pequeno background de minha formação. Sou publicitário formado no segundo semestre de 2015. Saí do Ensino Médio em 2007, indo direto para a universidade, afim de estudar Engenharia da Computação na UFES. Porém, não me dei muito bem com o curso, então saí da UFES em 2011 para estudar Publicidade em uma faculdade particular. Mas concluí minha educação básica toda em escolas públicas, então sei como é o dia-a-dia difícil dentro de uma. Dito isso, sempre me interessei pelas matérias tipo Filosofia, Sociologia, Geografia, História, Artes. Eram as matérias que eu mais conseguia tirar notas boas. Na faculdade idem.

No fatídico dia 22 de setembro tivemos a notícia de que parte dessas matérias (Filosofia, Sociologia, Artes, Educação Física) irão sair do currículo obrigatório do Ensino Médio como base de uma “reforma”. A ideia é, aparentemente, deixá-lo mais enxuto e mais específico, e porque não dizer, com uma formação mais voltada para o mercado de trabalho.

Devemos saber antes de mais nada, que tal movimento de deixar à escolha do aluno se ele deseja ou não cursar essas matérias não é exclusividade do Brasil. Japão, EUA, Alemanha, Coreia do Sul, Austrália e diversos outros países estão revendo estas matérias dentro do escopo do ensino secundário, e até trocando por matérias mais relevantes para áreas tecnológicas como programação de computadores por exemplo.

Mas voltando ao Brasil, alega-se que os alunos do Ensino Médio vão perder muito com isso. Que me perdoem os professores, mas isso não cola.

Sim, sabe o que os alunos vão perder com isso? Absolutamente N-A-D-A. Nada mesmo. Até porquê, com ou sem obrigatoriedade dessas disciplinas, a grande maioria nunca se interessou em aprender o mínimo que seja de Filosofia, Sociologia e Artes. Todo mundo sabe que é bom para desenvolver o senso crítico. O grande problema é que no modelo atual não há motivação por parte dos alunos do Ensino Médio em aprender essas matérias.

Pergunte a qualquer egresso do Ensino Médio o que ele sabe de René Descartes, Pierre-Joseph Proudhon, Henry David Thoreau, Thomas More, John Locke, David Hume, Soren Kierkegaard, Immanuel Kant. Pergunte se ele sabe o quanto dos preceitos básicos da sociedade capitalista de hoje é influenciada principalmente pela ética protestante (especialmente o protestantismo calvinista) como mostra a obra de Max Weber. “Max Weber? Quem raios é Max Weber?”. Mostre a ele um quadro brasileiro tipo O Abaporu e pergunte se ele sabe quem pintou aquele quadro. Peça para apontar onde fica a Austrália num globo terrestre, ou dizer qual é a capital do estado do Tocantins. Peça para citar um nome relevante para a Revolução Francesa ou quem foram os bandeirantes do Brasil. Pouquíssimos alunos irão responder satisfatoriamente a essas perguntas, simplesmente pelo fato de que pouquíssimas pessoas têm real interesse nessas matérias.

Você pode dizer que falta aos professores dessas matérias encontrarem maneiras de estimular os alunos. Eu até concordo, mas esse mesmo raciocínio pode ser aplicado em qualquer matéria.

Não adianta forçar. A sociedade moderna de modo geral está pouco se lixando para Filosofia, Sociologia, Geografia, História e Artes. Não dá para obrigar os jovens a perder tempo com essas matérias que eles não demonstram qualquer interesse. É por isso que esta proposta atual é bem-vinda, pois a partir do segundo ano do Ensino Médio ela permite ao aluno montar sua própria grade curricular e se focar apenas no essencial para seus futuros estudos universitários, se dedicando mais naquilo que ele gosta.

Sobre Educação Física, o ensino dessa matéria é péssimo nas escolas públicas pela falta de estrutura. Não temos escolas com quadras adequadas, com equipamentos para exercícios físicos, e muito menos diversidade esportiva. É raro ver nas escolas públicas treinamentos em esportes olímpicos como atletismo e natação. Quando muito, temos esportes mais populares como futebol, vôlei, basquete e handebol. Neste sentido, pouco ou nada se perde com a flexibilização da Educação Física dentro do Ensino Médio.

Obviamente que isso não resolve tudo, mas pode ampliar as possibilidades. Por exemplo, quem quer se aventurar na área da publicidade ou na criação de jogos digitais (como é o meu caso nos dois itens), precisa necessariamente entender de Filosofia, Sociologia, História, Geografia e Artes, não apenas de Matemática e Programação. São conhecimentos obrigatórios para qualquer game designer e diretor de criação/arte que se preze. Mas essas matérias agora poderão ser selecionadas por quem realmente se interessa por elas, e assim as aulas vão melhorar muito porque nas salas só haverá alunos que se matricularam nessas matérias por vontade própria, diminuindo bastante os problemas que os professores enfrentam de salas lotadas de alunos desinteressados.

Além disso, se queremos estimular o pensamento crítico, devemos fazê-lo desde a infância. E aparentemente as matérias supracitadas vão continuar como obrigatórias nas escolas de Ensino Fundamental. Em todo caso, a internet está aí, e as pessoas que se interessarem podem buscar informações em qualquer lugar. Concordo que isso por um lado é perigoso pois pode “influenciar a pessoa a ir atrás de informações erradas”. Mas nada disso é novidade. A verdade nua e crua é que as pessoas compartilham no Facebook as informações que elas gostam, que satisfazem seu filtro preestabelecido, não as informações que realmente fazem alguma diferença. Ou você acha que compartilhar postagens de “O Cafezinho”, “Brasil 247”, “Veja”, “MBL”, ou qualquer coisa que seja de acordo com a sua ideologia te faz mais inteligente, estudado e próximo da verdade do que outras pessoas?

O mundo está evoluindo, as tecnologias avançam sem parar, e a educação precisa se adequar ao ritmo frenético de hoje. As pessoas já se adaptaram a essas mudanças, mas algumas instituições como o governo, as escolas, os bancos, a polícia ainda se baseiam em modelos do passado. Enquanto isso, empresas de tecnologia sabem muito mais sobre você do que qualquer outra pessoa ou instituição no mundo e utilizam esse poder para ganhar dinheiro.

Em todo caso, eu pessoalmente acredito que tirar essas matérias e focar apenas nos tradicionais “Português e Matemática” não resolve o problema, nem do senso crítico, nem do mercado. Se queremos mudar realmente a educação no Ensino Médio, é preciso dar destaque a algumas matérias que são deliberadamente ignoradas como Economia, Legislação, Segurança Digital, Lógica, Programação, Direitos Humanos etc. São discussões mais generalizadas socialmente, e que tem maior peso no mundo atual.

É preciso pensar e entender o mundo de maneira crítica? Claro. Sou uma das pessoas que mais advoga o pensamento crítico, mais independente. Mas isso tem que ser trabalhado na infância. Não é no Ensino Médio que uma adolescente que quer estudar Medicina vai querer saber qualquer coisa sobre Sociologia que ela não tenha visto no Ensino Fundamental. Não será no Ensino Médio que um futuro estudante de Engenharia vai querer saber do anarcocristianismo advogado por Leo Tolstói. Isso tem que ser passado no Ensino Fundamental. Desta forma, ao longo dos anos é possível criar real interesse pela Filosofia, Sociologia e outras matérias no futuro, e assim quem sabe, termos cidadãos mais críticos ao mesmo tempo em que estarão mais preparados para as demandas do futuro e mais especialistas no que gostam de fazer.

Por fim, é necessário dizer que qualquer medida responsável para reformar a educação deve consultar os alunos. São eles que serão mais afetados, são eles que precisarão do apoio.

Melhorar a Educação é um processo longo, chato e penoso. Mas é preciso arriscar, pois não há fórmula mágica ou modelos que funcionem em todos os lugares.

Por agora, só nos resta observar e torcer para que dê certo.

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