Stoner — John Williams

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Minha história com esse livro se deu tempos atrás quando houve uma onda de pessoas o recomendando, principalmente entre booktubers que receberem o livro da editora Rádio Londres. Pela capa do livro e o nome eu achava que era alguma biografia de algum cara da contracultura. Não passei dessa impressão. Aí fiquei sabendo que o livro era o próximo a sair pela TAG, o clube do livro do momento. Com o desconto da primeira assinatura o preço sairia mais barato do que nas lojas online então aproveitei para experimentar a TAG e adquirir o livro. Recebi o kit com um mimo, a ecobag por ter recomendado mais uma pessoa para o clube, o livro e a tradicional revista que fala tanto do livro quanto do autor e do curador além de assuntos relacionados.

Só quando comecei a lê-lo, ainda sem saber muita coisa (geralmente é como muitas vezes leio um livro, procurando saber muita pouca coisa sobre ele) é que me dei conta que o livro era uma ficção! O próprio estilo do livro, no seu início, deixa dúvidas disso, parece que estamos lendo sobre uma pessoa real.

Um dos grandes achados do livro é justamente esse estilo de narrar do autor que parece sempre estar falando de alguém real. Não se perde em descrições intermináveis e nem faz com que tudo fique banal com uma novela com vários diálogos. As elipses são ótimas com passagens de tempo inusitadas em certas partes onde percorremos bastante tempo de uma vez e em outras o contrário ocorre. O estilo de John Williams é fluído e faz com que nossa leitura renda bastante. Metade do livro li numa única noite, pois era tão cativante continuar vendo como as coisas se desenrolavam que não se percebia o número de páginas lidas e nem o tempo gasto. Para uma pessoa como eu que há tempos enfrenta certa resistência na leitura de obras ficcionais esse estilo de escrita é notável pela forma como que nos devolve a paixão pelas narrativas diretas e honestas como a do livro.

O autor, John Williams.

Do que se trata o livro afinal de contas? Isso é tão desimportante que o 1º parágrafo do livro diz tudo o que vai ocorrer no livro, a vida e a morte de William Stoner. Não há nem o perigo de spoilers, sabemos quando nasceu, morreu e o que fez durante sua vida. E a breve noção que não teve uma carreira como professor bem sucedida, poucos se lembram dele. Sim, a obra é quase que uma canção do Bruce Springsteen sobre um loser, mas uma histórica épica sobre um loser. Stoner teve uma vida que boa parte de nós teve, vai ter ou convive com quem tem: de família humilde conseguiu se formar, se tornar professor após descobrir uma paixão pela literatura, se casar, ter uma filha, perder os pais, ter um caso, se aposentar e morrer. Nada muito mais do que isso.

Lendo boa parte do livro de uma vez dá para se perceber uma previsibilidade em algumas situações. A felicidade do protagonista é constantemente derrubada tão logo a descobre. O casamento com uma moça bonita logo se mostra desastroso, a convivência com a filha logo é cortada pela mãe, seu espaço pessoal em sua casa, o escritório, lhe é retirado e é levado a ficar numa varanda da casa, as aulas na universidade logo são sabotadas por um incidente com o chefe do departamento e seu protegido, e assim ocorre em diversas outras situações. Stoner passa por tudo isso de forma estoica e passiva.

Não é necessário falar mais do que ocorre no livro, mas sim do que o autor tenta mostrar sem se sentir superior à sua criação. É uma existência quase infeliz e vazia, mas nunca isso é explicitado ou exposto, vemos o lado heroico dessa vida, das pequenas coisas que o fazem seguir em frente. O protagonista mesmo se pergunta se algo valeu a pena em sua vida e no momento que pensa isso ele acha que não. O leitor vai percorrer essa vida com ele e se simpatizar com tudo isso. Podemos ficar indignados com algumas atitudes ou não atitudes do protagonista, mas o entendemos cada vez mais até o seu fim. Nunca uma vida tão simples deu num livro tão complexo.

Vendo a biografia do autor vemos como a trajetória de Stoner espelha a de Williams. Há toques autobiográficos no livro? Talvez.

A parte final, que não é surpresa, vai tratar de sua morte, é um dos momentos mais bonitos que vi na literatura sobre o fim de uma pessoa. Tudo é tão triste e ao mesmo tempo esperançoso. Stoner é uma obra única que foi escrita nos anos 60 mas redescoberta e elogiada apenas nos anos 2000 pelo boca a boca entre autores e personalidades que descobriram essa pérola literária. Assim como eu faço aqui, para vocês. Leiam e descubram quem foi William Stoner.