Free Hugs

Holy Wayne, em Leftovers

“[…] Ao contrário do AA de Boston, o NA de Boston não tem pausa para a rifa no meio da reunião e dura só uma hora. No encerramento da Reunião de Novatos de Segunda-Feira todo mundo levantou, se deu as mãos em círculo e recitou o “Só Hoje” aprovado pela Conferência do NA, depois todos recitaram o Pai-Nosso, não exatamente em uníssono. Kate Gompert depois jurou que ouviu nitidamente o cara mais velho e esfarrapado ao lado dela dizer “E não nos deixeis cair nessa Estação” durante o Pai-Nosso.

Aí, que nem no AA, a reunião do NA terminou com todo mundo gritando para o ar em frente Continue Voltando porque Funciona.Mas aí, de um jeito meio pavoroso, todos lá dentro começaram a andar por ali de maneira confusa, que nem uns malucos, se abraçando. Foi como se alguém tivesse ligado um botão. Não tinha nem muita conversa. Eram só abraços, até onde dava para Erdedy ver. Uma abraçação descontrolada e indiscriminada, cujo objetivo parecia ser abraçar a maior quantidade possível de pessoas por mais que você nunca as tivesse visto na vida. Neguinho ia de pessoa em pessoa, de braços abertos, se chegando. As pessoas grandes se dobravam e as baixinhas ficavam na ponta do pé. Mandíbulas roçavam mandíbulas. Os dois gêneros abraçavam os dois gêneros. E os abraços homem-homem eram abraços puros, abraços sem os vigorosos tapinhas nas costas que Erdedy sempre tinha visto como uma espécie de requisito necessário para os braços homem-homem. Johnette Foltz era quase um borrão. Ela ia de pessoa em pessoa. Ela contabilizava uma quantidade significativa de abraços. Kate Gompert estava com a sua cara desbeiçada de sempre, de uma insatisfação macambúzia, mas até ela deu e recebeu alguns abraços. Erdedy porém — que nunca tinha gostado muito de abraços — foi para bem longe da multidão, para perto da mesa de Textos-Aprovados-pela-Conferência-do-NA, e ficou ali sozinho com as mãos nos bolsos, fingindo examinar a cafeteira com grande interesse.

Mas aí um camarada afro-americano bem alto e pesado com um incisivo de ouro e um cilindro perfeitamente vertical de cabelo afro se destacou de uma espécie de abraço grupal ali perto, ele tinha detectado a presença de Erdedy, e o camarada veio e se postou bem diante de Erdedy, abrindo os braços da jaqueta camuflada para um abraço, curvando-se levemente e se aproximando da região torácica pessoal de Erdedy. Erdedy ergueu as mãos num gesto inane de Não Obrigado e se afastou ainda mais até espremer a bunda contra a borda da mesa de Textos-Aprovados-pela-Conferência.

“Valeu, mas eu não gosto muito de abraço”, disse.

O camarada teve que meio que engatar uma ré na sua aproximação pré-abraço e ficou ali paralisado de um jeito inibido, com os braços ainda estendidos, o que Erdedy percebeu que devia ser constrangedor e vergonhoso para o camarada. Erdedy se viu tentando calcular que região subasiática remota estaria ao maior número possível de km de distância daquele ponto preciso naquele momento preciso enquanto o camarada continuava ali parado, braços estendidos e o sorriso lhe escorrendo rosto abaixo.

“Como é que é?”, o camarada disse.

Erdedy lhe ofereceu a mão. “Ken E., Ennet, Enfield. Como vai. A sua graça?”

O camarada foi abaixando os braços devagar mas só olhava para a mão que Erdedy oferecia. Uma única piscada estíptica. “Roy Tony”, disse.

“Roy, como vai?”

“Qual é”, Roy disse. O grandão agora estava com a mão que deveria ser apertada atrás do pescoço e fingia tatear a nuca, o que Erdedy não sabia que era uma megaofensa.

“Então Roy, se é que eu posso te chamar de Roy, ou sr. Tony, se você preferir, a não ser que seja um primeiro nome composto, com hífen, “Roy-Tony”, e depois vem um sobrenome, mas então esse negócio de abraços, Roy, não é nada pessoal, fica tranquilo.”

“Fica tranquilo?”

O melhor sorriso desamparado de Erdedy e um dar de ombros pesaroso do anoraque de GoreTex. “É só que eu não gosto muito de abraço. Não sou de dar abraço. Nunca fui. Era até motivo de piada na minha fam…”

Agora um ominoso indicador de agressão-de-rua apontado, esse tal de Roy indicando primeiro o peito de Erdedy, depois o seu: “Então, meu, quer dizer que cê tá dizendo que eu sou de dar abraço? Cê tá dizendo que eu ando dando abraço por aí?”.

As mãos de Erdedy estavam com as palmas viradas para cima e se sacudiam num gesto de bonomia, de quem quer eliminar qualquer possibilidade de mal-entendidos: “Não mas ó a questão aqui é que eu não ia me dar esse direito de te classificar como quem gosta ou não gosta de abraço porque eu não te conheço. Eu só estou dizendo que não é nada pessoal, que tenha a ver com você enquanto indivíduo, e eu vou ficar mais do que satisfeito de apertar a tua mão, até com um desses apertos de mão étnicos complicadões com as duas mãos e tal se você aguentar a minha inexperiência nesse tipo de aperto, mas é que eu simplesmente não fico à vontade com essa coisa de abraços”.

Quando Johnette Foltz conseguiu se liberar e ir até eles, o camarada estava segurando Erdedy pela lapela impermeável do anoraque e inclinando o rapaz por cima da borda da mesa com os textos de modo que a bota de trilha de Erdedy estava fora do chão e a cara do camarada bem em cima do rosto de Erdedy numa claríssima demonstração de agressividade.

“Você acha que eu gosto dessa porra de ficar abraçando essa negadinha daqui? Você acha que alguém aqui gosta dessa merda? A gente faz o que eles mandam a gente fazer. Eles dizem que aqui é Orgulho sem Bagulho, aqui. A gente entregou a porra da nossa vontade aqui, mano”, Roy Tony disse. “Bichinha”, acrescentou. Roy enfiou a mão entre eles para apontar o próprio peito, o que significava que ele agora estava segurando Erdedy no ar apenas com uma mão, fato que não passou despercebido pelo sistema nervoso de Erdedy. “Eu tive que dar quatro abraços na minha primeira noite aqui, e aí eu saí correndo pra porra do lixo e vomitei. Vomitei”, disse. “Não tá à vontade? Quem é que você tá pensando que é, meu? Nem venha tentar me vim com essa de dizer que eu tou aqui à vontade com isso de tentar abraçar essa tua caveira de mané com esse cheirinho de loção de barba Calvin Klein e essas roupinhas James River Traders do caralho.”

Erdedy observou uma das mulheres afro-americanas que estava olhando bater as mãos e gritar “Ai, doeu!”.

“E agora você vem me desrespeitar na frente de toda a minha galera limpa e sóbria bem quando eu tinha ido correr o risco de dividir a minha vulnerabilidade e o meu desconsolo com você?”

Johnette Foltz estava meio que dando tapinhas nas costas da jaqueta camuflada de Roy Tony, estremecendo mentalmente ao pensar como ficaria um relatório de um residente da Ennet atacado numa reunião do NA aonde ela o tinha levado pessoalmente no Registro de Funcionários.

“Agora”, Roy disse, puxando a mão livre e apontando para o chão da sacristia com um gesto que era uma estocada, “agora”, ele disse, “você vai correr o risco da vulnerabilidade e do desconsolo e vai abraçar o meu caveirão, ou eu vou ter que arrancar a porra da tua cabeça e dar um cagão no teu pescoço?”

Johnette Foltz segurava o casaco do dito Roy com as mãos, tentando arrancar o camarada dali, derrapando de Keds no parquê, tentando conseguir apoio, dizendo: “Ô Roy T. chegado, susse aí, véio, Meu, Chapa, Cupincha, Mano, Dez, Do-Bem, De-Casa, Mó-Legal, Irmão mesmo, ele só é novo e tal; mas a essa altura Erdedy estava com os braços em volta do pescoço do cara e lhe dava um abraço tão vigoroso que Kate Gompert depois disse a Joelle van Dyne que parecia que Erdedy estava tentando escalar o sujeito. […]”

“Graça infinita”, DFW — Tradução de Caetano Galindo

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