o último adeus tem gosto de amor

“O último adeus tem gosto de amor.” Respondi depois que ela me perguntou o nome do último item da lista do casal mais fofinho e lindinho do mundo todooooo. Casal…Essa porra de palavra me remete a namoro e namoro me remete a relacionamento e relacionamento me remete a compromisso. Compromisso é decepção. Sempre pensei assim. Não me orgulho disso. A única coisa pela qual me orgulho nessa vida são meus dentes alinhados, meu pau de dez centímetros e poder gargalhar sozinho em meu quarto vazio. O resto sempre foi resto, até uma garota surgir mais uma vez na minha vida.
Calçando o medo, eu tento chutá-la com toda força, para o mais longe possível, mas ela continua ao meu lado, tentando se equilibrar em mim e tirar toda a sujeira egoísta de meus olhos castanhos e perdidos.
O egoísmo é como catarata: quando você percebe, já está cego e sua visão se limita para dentro de si mesmo. A única diferença é que não há cirurgia capaz de aliviar o peso de sua existência inútil e cheia de culpa por ser quem você realmente é.
Voltando à garota.
Ela apareceu do nada em uma noite quente de julho, em um bar do caralho que eu frequentava por vender litrão de Bud por onze conto.
Sentado em minha frente, Wanderley explanava sobre a porra do Camus e como o estrangeiro é o homem livre por si só:
- A liberdade não vem de fora, Fellas. A liberdade vem de dentro. Vem da mente.
Encho seu copo e corto a assunto. Falo que Gabrielle quebrou meu coraçãozinho. Fiz de tudo para que ela o quebrasse e ela conseguiu. Vadia do caralho. Aí meu irmão aparece com seus dreads cheirando a maconha e vinagre. Ele aponta para o lado e ela aparece com seus cabelos negros como a noite e a pele branca como a seda mais cara do mercado. Ela é tão linda quanto a lua será minutos antes de chocar-se contra a terra.

Mais dois copos e o mundo deixa de existir para se transformar no sorriso calmo que ela carrega sob seus olhos agitados e brutais.
Chame-a de Tati. Destrua a sua defesa independente e você terá um amor maciço e delicado como um machado. Vinte anos. AllStar nos pequenos pés. Meias calças acomodam-se em pernas que nascem da saia preta que senta ao meu lado. A mão gelada pousa o copo na mesa. A bebida deixa que a conversa flua com calma. Ela arruma o cabelo e sorri calmamente para mim. Seus olhos, tão castanhos quanto os meus, queimam de naturalidade e eu sei que vou me foder mais uma vez. Não só porque ela tem um namoro de cinco anos na garganta, mas porque, se bem me lembro, me apaixono por problemas como ela. Me apaixono por garotas problemáticas. Problemáticas porque, senhor Fellas? Porque ela apresenta algum interesse em mim e seus olhos queimam como estrelas presas em bolinhas de gude. É foda porque, se bem me lembro também, odeio esse tipo de garota por, exatamente, interessarem-se por caras como eu. Vagabundos mimados que merecem se foder por terem um gosto estranho em implantar o sofrimento em qualquer um que tente se aproximar. Eu preferia que ela jogasse merda na minha cara e risse de mim na frente de todos os meus amigos. Eu a odiaria menos. Tenha certeza. Porque eu odeio tudo que me faz bem.
Enchemos nossos copos com o sangue da vida e o tempo foi passando. Ela falando mais e mais e eu me sentindo bem apenas por escutá-la e ver suas expressões brotarem como lágrimas brotam no rosto do palhaço mais fodido da cidade. Ela era um quadro que eu deveria pintar mesmo sem saber a diferença de vermelho, magenta e meu pau.
Foda-se. Esse nem era o foco aqui, né não? Eu a conheci e muita merda rolou da mesma forma que rola depois de sair do seu cu e passar por todos os canos da sua casa. Nas paredes, no teto, até chegar em algum lugar muito longe de você. Ela deixa o namorado. Sai da cama dele e vem para a minha. Eles estavam noivos, como o mais lindo conto de fadas da modernidade. Ela com vinte. Ele vinte e três, tem carro, gerente fodido em uma multinacional, bilíngue e, acima disso, um cara realmente agradável e positivo. Isso parece loucura, mas ela veio para mim. As pessoas também gostam da decadência e loucura. Você pode ter a pica mais grossa, maaaaaas se não souber ouvir e cuidar daquele pequeno passado que faz seu coração vibrar, ele vai embora, batendo suas longas asas coloridas para outro alguém.
Ela só precisa de carinho e atenção, cacete. Se você souber como dar isso a ela, o mundo será um deus grego te servindo mais um chopp gelado com gosto de vida.
Mas porra! Voltando. Nesse final de semana que meu pau estava ficando fino de tanto foder sua bucetinha apertada, ela acendeu um cigarro e deitou ao meu lado. O quarto escuro. O relógio marcando às três da matina com seus dígitos vermelhos. Conversamos sobre a vida e falamos da lista que fizemos com o título “coisas que faremos nessa porra de vida”.
- Ah! Não podemos esquecer daquele lugar lá! Aquele lugar em que quebramos as coisas. Como um quarto arrumado. Nós pagamos para destruí-lo. Pagamos para descontar toda a nossa raiva.
Tati gostava da violência quase tanto quanto eu. Não falo só dos pornôs hardcores daquele cara sufocando aquela mina com o pau. Falo da violência contra si mesmo. Falo de autodestruição e de afastar todo mundo em uma tentativa de sentir algo. Dar amor faz bem, mas causar a dor faz com que você sinta algo muito mais intenso.

Um exemplo bem bosta: ela gostava de atrair olhares. Ela lançava seus olhos castanhos selvagens para todos. Professores, colegas de sala e principalmente caras aleatórios de qualquer festa. Então ela ia até eles, conversava por horas em algum lugar que eu não pudesse fumar ou entrar na conversa e depois passava semanas conversando com ele até ter certeza que o cara queria foder sua bucetinha. Ela já sabia que eles queriam fode-la, mas a certeza é a trilha sonora para a dança do ego inflamado que ela precisava alimentar.
- Quebrar tudo. Breaklab. Legal, legal. — eu disse e ela esmagou o cigarro no cinzeiro cheio, colocou a latinha de breja que acabei de matar no chão e passou a perna sobre mim, me guardando entre suas pernas de mulher. Seu rosto grudado no meu. Seus lábios vermelhos com o batom que eu pedi que passasse gritam por mim. Beijo sua boca. Os carros passam lá fora. Já é domingo. As pessoas acordarão em poucas horas e sairão com seus carros, buscando alguma satisfação por ainda estarem vivas e poderem gastar seus dinheiros em alguma preciosidade inútil. Não é dia de trabalho. Eles têm que perder tempo para conseguirem acordar cedo na segunda-feira reclamando de seus empregos de merda que dão sentido a suas vidas de merda. Eu quase chego a invejá-los invejo, sabia?
Quase porque ela esfrega seu corpo nu no meu. Os pêlos de sua buceta depilada crescem e raspam minha pele. Começo a levantar. Ela sorri e me engole com seu olhar carinhoso e tranquilo. Eu a viro e fico sobre ela. Suas costas tocam a cama. Beijo sua boca vermelha e começo a forçar a entrada. Aperto seus peitos que enchem minha mão e sorrio para ela. Camisinha. Entro. Tão apertada. Meladinha. Depois de fode-la por mais vezes que os seus pais, seu leitor filho da puta, já foderam nessa vida, eu ainda consigo admitir:
- Você tem a buceta mais apertada da cidade, meu amor.
Ela sorri e pergunta como sei disso.
Bombo até gozar. Ela geme alto. Cada bombada mais alto — emons diferentes, mas sempre intensos. Eu sinto sua buceta apertar meu pau, tentando segurá-lo, pará-lo. Eu a fodo com força e muito mais amor que algum dia você poderá sentir e caio ao lado dela. Ela me beija. Estamos ofegantes. Sorrimos. Rimos.
A vida é mais leve do que jamais foi. As pequenas coisas, como sair de casa, tornam-se tão pequenas quanto de fato são. Deixam de ser aqueles monstros gigantes que me esmagam com seus sapatos até meus pulmões não sentirem mais o ar e meu cérebro sinalizar a morte para todo o meu sistema nervoso. O mundo não é mais um lugar barulhento e agressivo e eu finalmente posso ver um futuro esperando que eu o arrebente. Como se tudo pudesse realmente ficar bem e a calma fizesse parte de mim pela primeira vez em muito tempo. Eu sorrio. Meus olhos queimam. Eu a beijo e abraço no escuro. Digo as palavras que mais temi.
- Eu te amo, mulher.
Ela me beija e é aí que entendo que temos o amor. Nós somos o amor. Amor. O sentimento que sempre rejeitei por considerá-lo um erro, finalmente faz sentido. Amar não quer dizer estar de bem com o mundo. Não é estar de bem com você mesmo ou ser uma pessoa leve e feliz. Amor é o fruto do sofrimento regado por prazer. É dar a arma carregada de suas piores fraquezas e acreditar que nenhuma bala será disparada. E, mesmo se for, está tudo bem também.
- Eu te amo, porra.
- Eu te amo, Re. Eu te amo.
Talvez uma lágrima quente tenha molhado meu travesseiro, mas está escuro e ninguém poderá classificá-la como lágrima cheia de poesia e vida ou uma daquelas lágrimas que sempre caem antes de você adormecer sozinho no quarto escuro.
Alguns carros ainda correm na avenida. Alguns passarinhos cantam como morcegos que voam estabanados contra o céu imundo da cidade. Algumas gotas leves caem do céu gelado, mas aqui dentro o amor nos aquece. Nós dois encontramos o amor. Nós fizemos isso e ele é nosso. O amor somos nós dois, pele com pele, mente com mente, pau com buceta e uma confiança extremamente segura no dia de amanhã. O amor é nosso e não vamos ensinar isso para mais ninguém. Espero que o mundo todo se foda e nós, enquanto a terra treme e as pessoas gritam com seus filhos condenados em seus braços, vamos para o espaço.
E então, talvez um dia, eu poderei parar de me — ela vira a cabeça. Abro os olhos. Escuridão. Ela respira fundo e solta um gemidinho estranho. Algum problema? Sem resposta. Amor? “Não me chame assim.” O que aconteceu?
Ela sai dos meus braços e vira de costas pra mim. Eu a beijo e pergunto qual foi a porra do problema.
- São os flashbacks de momentos que vivi.
- Quais momentos, amor?
- Momentos do passado. Saudades do Daniel e da vida que eu tinha com ele. Toda a minha rotina. Era tudo perfeito. Agora vejo que só eu não sabia disso; só eu não sabia que as coisas eram boas. (esqueci de mencionar: leia tudo isso com lágrimas e níveis vocais subindo e descendo, oscilando entre dor e arrependimento). Você não tem nada a ver com isso, Re. Me desculpe. Falei para você não se apaixonar por mim. Eu destruo tudo que toco(mais choro).
Eu a beijo e sinto que todas as lágrimas que viraram lava e queimaram minha garganta quando engolidas atingiram aos meus olhos de uma só vez. Senti algo em mim se quebrando, como um telhado que você sobe para pegar a pipa mais bonita da cidade. O telhado é uma casca de ovo que quebra e te engole para o fundo do buraco que uma vez você saiu. Você quer voltar para o útero materno. Para aquele calor seguro que nem você e nem eu nos lembramos, mas queremos por ser um dos melhores momentos de nossas vidas egoístas.
Eu estou no fundo desse buraco e percebo que as pessoas que estavam lá em cima não passam de uma loucura maluca a qual eu nunca pertenci. Tudo era uma mentira e a realidade é fria e distante de tudo que eu quero. Eu desapareço dentro de mim mesmo e não consigo encontrar o nosso amor. Ele foi roubado por ela e entregue para outro. Mais uma vez eu estou sozinho. Sorrio. O bom e velho Renato Fellas, o putão. O idiota que sempre se pressionou para ser um sujeito intocável e superior a todas as coisas realmente boas está de volta, e se encontra com uma vadia deitada em seu mundo. Uma vadia suja que merece se foder. Eu bebo suas lágrimas. Subo sobre ela. Aperto sua garganta e a fodo no pelo. Seu rosto deve estar vermelho. Ela me arranha e eu a fodo com mais força. Solto seu pescoço e puxo seu cabelo. Ela geme alto e falo no pé de seu ouvido, da maneira mais carinhosa possível: você é uma vadia suja. Vaca do caralho. Ela aperta meu pau com a sua boceta toda vez que está prestes a desmaiar e então tiro a mão de sua boca e a deixo respirar um pouco, bem de leve, antes de voltar a fode-la com força. Seus pulmões dependendo de mim para continuarem funcionando. Tiro meu pau de sua bucetinha quente e molhada. Enquanto ela volta a respirar eu gozo em seu rosto.
Acendo a luz do abajur. Olho para ela cheia de porra. Vou para a cozinha. Cerveja. Quarto. Ela está em posição fetal. Eu a abraço e ela chora um pouco e me pergunta se aquele papo de suicídio era real. Se eu realmente queria me matar ou se isso é papo de revoltadinho que quer chamar atenção.
- Eu só gosto de imaginar meu corpo frio no chão do banheiro e meu sangue para todo os lados. Isso me acalma de alguma forma.
- E aquele outro papo, Re? E aquele outro papo?
- Para de chorar, porra. Que outro papo?
- De ir embora comigo? Você realmente faria isso? Iria para o outro plano comigo? Longe deste mundo, longe de toda dor. Ninguém nos machucaria lá e estaríamos juntos para sempre.
Sim, eu faria isso. Uma única bala para nossas duas cabeças. Um gole para cada do mesmo veneno. Romeu e Julieta são dois babacas, poderiam ter aproveitado mais. Metido até os corpos secarem e se matado pelo motivo certo. Morrido de maneira poética e libertadora. Se um der força para o outro, não há como voltar atrás.
Ela me olha com seus olhos intensos e molhados de esperança. A boca pequena entreaberta. Ela pergunta se vamos colocar isso em nossa lista. Eu digo que sim. Ela sorri e diz que me ama. Me ama muito mais que eu imagino. Meu coração salta uma batida. 
Qual será o nome do último item de nossa lista, Re?