sobre antinatalismo no puteiro

o cheiro da sauna e uns caras de toalhas brancas rodeados de putas com suas lingeries desgastadas caracterizam o badenario. um puterozinho da augusta que ainda continua firme diante dos prédios e roles cults que continuam tomando a rua.
ian está de papo com uma garota que bebe uísque com gelo para mergulhar suas histórias de uma suposta amiga que apanhou muito de um cliente e por isso, assim como ela, não faz mais trabalhos na rua. não vai mais para motéis e não entra mais no carro de nenhum filho da puta que não paga a transa e as maquiagens que não conseguem esconder os roxos dos murros que ele deu. mesmo assim, ela diz pra ele que garota de programa, a maioria, gosta do que faz. ian pega em sua mão. ele não quer mais escutar. percebeu que mesmo a escutando o preço não cairá. um dos quartos minúsculos que ele se encaminha com ela será responsável pela escuridão que recebe um sexo desesperado de dois corpos vazios. na rela, todo sexo não deixa de ser isso mesmo, caralho. o sexo é na mente e a mente nunca deixará de ser solitária até que os vermes cheguem anunciando o fim da viagem que chamamos de vida.
chedeer já está dentro de outro cubículo. é uma velha gorda em que ele mete a pica. ela depois irá dizer para ian que chedeer é que nem o de flash, mete mais rápido do que um virgem punheteiro. ela tentará beijar a boca dele antes dos dois irem embora e só se lembrarem que eu estava lá quando ian estivesse rindo sua risada bebada e repassando as regras.
numero 1. não beije uma puta na boca.
numero 2. nem pense em beijar a xota dela.
numero 3. relembrar a regra numero 1 e 2.
eles me encontrarão lá fora porque há menos de uma hora eu ouvi ela me falar:
sou policial civil. minha família toda é da policia. mas eu to aqui pra fazer um bico, entende?
não.
um olho em mim e outro no espelho do bar do baldenario. o cabelo loiro escorre pelo corpo jovem. ela deve ter uns trinta anos. coxas grossas. peitos naturais e pequenos. quanto mais natural melhor. até mesmo as estrias são marcas de uma natureza bela e feminina.
puta e policial. sim, sei, continue.
é isso. mas você não vai querer ir comigo? — ela me pergunta e passa a mão fria em meu joelho.
não tenho dinheiro. só tenho os dez da entrada e essa breja que veio de brinde.
breja. hum… olha! o meu copo já está vazio! você não quer me pagar uma dose de uisque?
não tenho dinheiro. é sério. já falei isso para aquela morena ali.
ela me diz que tem um filho. um bom aluno estudioso. acredita que ele vai crescer na vida. ela não vai deixar que falte nada para ele. ele não vai passar necessidade como ela passou. fico feliz com isso. ela fala com si mesma antes de lembrar que eu estou aqui. volta a pedir uma dose pra mim.
não tenho dinheiro, caralho.
ela sorri pra mim. beija minha bochecha. queria desejar uma vida boa para ela e seu filho. queria que todos tivessem a oportunidade que eu tive de estudar e crescer na vida. talvez eles, diferente de mim, conseguissem aproveitar o mundo de mão beijada que eu tive. no meu caso, algo deu errado. eu joguei fora tudo que pôde me fazer bem. meu único sucesso foi mudar o futuro inevitável. mais isso é outra história.
enquanto ela vai embora, sua bunda redondinha aparece enquanto um véu negro, saindo de sua langerie, balança de um lado para o outro, e eu penso: a pior coisa que podemos fazer é nos reproduzir. mesmo que o sexo seja a melhor fuga momentânea de nossa consciência. ter um filho é um erro. é tirar da não existência um objeto pro sofrimento. mas deixa pra lá. ela vira e sorri pra mim. sinto vontade de chorar. sorrio de volta e mato minha breja.
ela para ao lado de um segurança de óculos escuros. eles conversam. sei que estou em um puteiro, mas não sinto vontade de comer ninguém. tudo parece tão decadente quanto beijar a boca de um morto, ter uma ereção, e acreditar que está tudo bem. é como buscar a perfeição em uma garrafa de coca cheia de mijo.
o segurança de óculos escuros olha para mim e me cumprimenta com a cabeça. faço um gesto leve com a cabeça e vejo ian levando a puta até o quarto.
vou cair fora dessa merda. já é domingo e não sei mais o que eu to fazendo aqui.
setenta reais.
oi?
setenta reais. uma soda com vodca e a entrada.
não bebi nada.
o segurança da porta me olha de cima a baixo e me aponta para um cara que entrou no bar. eu me aproximo dele segurando a notinha.
VOCÊ VAI PAGAR, CARALHO. VAI PAGAR ESSA PORRA, CARALHO, PORRA! VAI PAGAR!
ele grita. cheiradão. seus olhos parecem dois círculos brancos mal feitos no photoshop. desproporcionais com o rosto. ele é a loucura materializada.
o que eu te fiz, cara? qual é a sua? qual é a usa?
VAI PAGAR.
ele bate no balcão e eu me cago.
tudo bem. vou fumar um cigarro, esperar meus amigos e pagar.
saio e queimo um cigarro. coloco minhas pernas para funcionar. subo a augusta como um filho da puta sem pai. corro para minha moto como um estuprador fugindo da prisão e mergulhando em convento.
viro a esquina e paro na frente do cursinho etapa — menos de mim em mim mesmo -, tentado destravar as trancas da minha moto. tem tranca e por isso ninguém levou a minha moto. mas ter ainda uma moto trancada não me ajuda muito quando o cheirado do bar me alcança. levanto uma das trancas e ele vem pra cima de mim. bem maior que eu, mas não tão forte quanto essa merdinha de ferro que seguro e barulho de sirene.
luz vermelha e uma viatura encosta do nosso lado. como deus provando que existe e é um ser sádico que merece morrer.
um PM sai da viatura e cumprimenta o cara da mesma forma que você cumprimenta um velho amigo de infância. o PM para na minha frente. nível de medo vai para setenta por cento. só de eu não ser pobre e preto já sei que tenho chances de viver.
CNH e documento da moto. ele analisa. explicamos a história. você vai pagar.
pago.
ian e chedeer aparecem do lado de fora e subimos a rua caminhando em silencio.
