A cachola e a caixola

Texto de apresentação do disco "na cachola", de Marília Calderón e Walter Garcia

Muitas vezes, durante o processo do disco, entre conversas e e-mails com Marília Calderón e Walter Garcia, confundi as palavras “cachola” e “caixola”. Não é por acaso.

Nesse sentido, ouso dizer que a cachola e a caixola têm muito mais em comum do que uma similaridade fonética. A primeira palavra, que é uma metáfora para a cabeça, tem relação com a segunda, diminutivo de caixa: a cachola, de certa forma, é uma caixola. Em na cachola, o trabalho autoral de Marília e Walter parte desse que é um espaço a ser preenchido.

Nas 12 canções, são testadas as dimensões e as estruturas dessa caixa. O que cabe? O quanto pesa? A palavra, às vezes, tem um peso quase insustentável, como na perversa “o gato no capô” (Walter Garcia/ Marília Calderón/ Marcelo Segreto/ Ton Lopes). Nessa mesma direção, a canção “na cachola” (Walter Garcia/ Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira) traz um eu lírico neurótico e todo o ruído gerado pela estrutura obsessiva. Ao contrário, estão o discurso factual, no texto científico de “sinais de amor” (Walter Garcia), e a jurídica “canção da injustiça” (Walter Garcia/ Marília Calderón).

A performance e as composições ressoam enunciados retirados de diversas fontes. Ao mesmo tempo em que “amor e amizade” (Walter Garcia/ Susan Grey/ Cláudia Rato) nasce de uma notícia de jornal, “choro para tom” dialoga com a obra de Tom Jobim. O que poderia ser um modus operandi tropicalista, denota, na realidade, um exercício exploratório que tem como objetivo chegar ao desenho das diferentes formas do discurso.

Marília Calderón e Walter Garcia mostram, de certa forma, o que antecede a palavra e que, outrora, Lacan chamou de “um discurso sem palavras”. Chegam às estruturas. na cachola nos revela o que a cachola tem de caixola, esse lugar a ser preenchido.

Download gratuito em: www.nacachola.com

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