Fugaz


Não se lembrava bem, mas fazia dias que estava sem comer direito. Só migalhas de pão, frutas encontradas nos cantos, restos de comida, água da chuva. Apesar disso seguia vivendo. Ou sobrevivendo, claro. Melhor do que estar morto.

Se tem algo que possa ser dito sobre aquela situação é que ele merecia. E sabia disso. Merecia cada migalha de pão, cada gota de chuva descendo pelo cano. Cada olhar de pena ou nojo.

Nem sempre tinha sido assim. Apesar de que agora a memória de tempos melhores já lhe começasse a faltar. Os flashes vinham de tempos em tempos e cada vez mais infrequentes.

Uma lembrança que vinha com mais frequência era a de um balanço. O assento era vermelho. Ou pelo menos ele pensava que era. Porque a lembrança era toda em preto e branco, disso tinha certeza.

Isso. O assento do balanço era vermelho. Era preso por umas correntes ao galho de uma árvore. Ele podia sentir mãos empurrando-o no balanço. Podia sentir o vento batendo no rosto. Percebia os cabelos voando e roçando na sua testa. Achava que tinha cabelos grandes ou, talvez, encaracolados.

O cheiro. O cheiro era algo que acompanhava esta lembrança. Cheiro de limpeza. De Flores. Um cheiro que há muito não sentia. Não tinha certeza se o balanço ficava num parque ou num quintal. Mas tinha cheiro de flores. Isso com certeza.

Achava que era de tarde, fim de tarde. Não sabia por que, mas tinha a impressão de sol se pondo. Como podia ter esta impressão numa lembrança em preto e branco não sabia. Talvez fosse alguma coisa no fundo da cabeça. A luz do sol no horizonte?

Este flash de memória era como uma droga para ele. Um shot de crack. Trazia uma sensação imediata de paz. Já nem tinha certeza se era uma lembrança real, ou se era uma imagem que ele mesmo tinha produzido, de repente de algum comercial de televisão.

Não, era real, com certeza.

Sabia que as mãos que o empurrava pertenciam a alguém que significava algo para ele. Sabia que era alguém em quem podia confiar. Alguém que há muito tempo tinha desaparecido. Assim como o balanço, o cheiro de flores, o vento no rosto, o por do sol.

Agora o que restava era o cheiro nojento de corpos sem banho, um cheiro azedo que já nem o afetava mais. Estava acostumado. Assim como estava acostumado com o gosto do resto de comida nos latões dos restaurantes, com os farrapos eternamente úmidos que faziam as vezes de roupa. Com o cheiro de fezes e urina.

Aliás, se acocorar para cagar num canto qualquer já era tão natural que ele nem se importava. Nem via os olhares de nojo dos passantes. Tinha um certo prazer em causar espanto e repulsa e não se incomodava nem quando um guarda municipal ou segurança o expulsava à força, geralmente com uma porrada na cabeça ou nas costas.

Ultimamente os flashes vinham cada vez menos.

A impressão que tinha era de que ficava dormindo o tempo todo. Mal se recordava de como tinha sido a sua rotina no dia anterior.

Lembrava de ter conseguido uma média com pão de uma alma caridosa. Na verdade tinha enchido tanto o cara que ele resolveu pagar o lanche para se livrar do craqueiro fedorento.

Depois se lembrava de estar misturado com os outros, no mesmo canto de sempre, atrás do muro do posto de gasolina abandonado. Como tinha conseguido a pedra não tinha a menor ideia. Mas daria para segurar a noia um pouco.

A próxima lembrança já era de noite. Acordou na chuva, amarrotado num canto da parede. Se arrastou até debaixo da cobertura, onde se amontoavam outros.

Já tinha passado do estado de fome. Nem o frio o abalava tanto. Precisava de uma pedra. Precisava muito de uma pedra. Mais do que tudo na vida.

Forçou algum flash de lembrança.

Era seu pai. Tinha certeza de que a mão que o empurrava no balanço era do seu pai. Mas não conseguia lembrar qual era o nome dele. Nem como era o rosto, nem se era legal. Devia ser, afinal estava ali empurrando-o no balanço. Tinha certeza da que era ele.

Queria muito, muito, voltar àquele parque, ou quintal. Queria muito muito ser empurrado no balanço de novo. Queria muito sentir o vento no rosto mais uma vez. Queria muito uma pedra pra se sentir vivo de novo.

Agora sentia o frio, sentia o corpo molhado, sentia um calor que não sabia de onde vinha.

O flash veio mais claro do que nunca. Era um parque, agora tinha certeza. Via outras crianças brincando num canto. Parecia que faziam castelos de areia. Tinha gente jogando bola mais adiante. Podia ouvir vozes de crianças rindo, excitadas. Podia até ouvir a própria voz, gritando “mais alto, mais alto” e as mãos empurrando-o com mais força. E o vento mais forte no rosto. Ia tão alto que quase podia tocar o sol.

O calor no rosto foi a última coisa que sentiu.

Levou um tempo até perceberem que no meio dos despojos no canto tinha uma pessoa. Já destituída definitivamente de qualquer memória.

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