Guedes, Bolsonaro e a Chilenização do Brasil
Sobre o “pacotão” apresentado no dia 05/11/19 pela dupla Bolsonaro-Guedes ontem no Congresso:
1. Parece que temos dois governos no país, neste momento. O primeiro é o “governo oficial”, liderado pela Família Bolsonaro e seus apaniguados mais diretos, levando adiante a agenda de confronto político permanente como forma de governo, de maneira a avançar agendas obscurantistas de fundo moral, além da visão “anti-comunista” resgatada dos anos 50 do século passado. De outro, o “ governo informal” do Guedes e seus “Chicago Boys”, trazendo “racionalismo” e “tecnicismo” à condução econômica, de forma a “refundar” o Estado Brasileiro, numa versão anos 2020 da velha promessa de que o bolo tem de crescer para depois ser dividido. Promessa essa que escutamos há mais de 100 anos. Eles dizem que agora será diferente, mas dá para acreditar? Muita gente parece crer que dá para comprar o Governo Guedes sem levar junto o Governo Bolsonaro. Ou, mais cinicamente, defendem que é necessário aturar o segundo, para dar sustentabilidade ao primeiro. Mas não pensam (ou não querem pensar) que ambos governos são um só. Como, aliás, demonstra a pulseira que Guedes usava no anúncio do pacote mencionando um trecho do Apocalipse que faz referência à vitória dos Anjos de Deus contra o Dragão Vermelho, personificação do Demônio (e de quem mais?).
2. O Pacote do Guedes é, no fundo, uma tentativa de “chilenização” do Brasil. A fórmula, basicamente, é a mesma: menos Estado e mais “autonomia”. Se tudo der certo, a riqueza gerada vai beneficiar todo mundo. Bom, se é para usar o Chile como referência o Pacote veio em má hora, quando o sistema implementado a ferro e fogo pelo nosso vizinho sul-americano está fazendo água para todos os lados. Mais de 80% da população chilena quer mudanças imediatas. O bolo do Chile cresceu, sem dúvida, mas adivinha quem se beneficiou? Não foi a maioria da população, como se pode perceber. Deve ser por isso que tem tanto “agente econômico” vibrando com o Pacote do Guedes. Sabem que vão ganhar muito dinheiro e não terão justiça trabalhista, leis e impostos para encher o saco. Ah, as delícias do Livre Mercado. Para quem pode entrar na festa e se esbaldar no champagne, claro. Uma parte da Classe Média até conseguirá entrar na mansão, para servir o champagne e o caviar ou estacionar os carros. O restante da população com certeza vai é continuar do lado de fora dos portões, levando bordoada a cada vez que tentam invadir a festança.
3. A aposta na agenda moral e de “proteção da família”, apoiada por evangélicos pentecostais, católicos carismáticos e aproveitadores diversos, aliada ao esgarçamento da agenda política, com o atiçamento permanente do anti-petismo atávico, parece ser a fórmula perfeita para fazer avançar o Pacote do Guedes. No Chile, foi preciso uma ditadura sangrenta para impor a visão dos Chicago Boys. No Brasil, a estratégia, aparentemente, será mais sutil: esgarça-se a agenda política, atiça-se o canil bolsonarista, cria-se uma tensão permanente com o outro extremo do espectro político e uma boa parte da população (e da mídia) entuba, ou fica indiferente, ao verdadeiro jogo que está sendo jogado — e que vai afetar a vida de todas e todos nas próximas décadas.
4. O Chile é aqui. Com a diferença de que temos uma população 12 vezes maior, com um grau de desigualdade social que é maior hoje do que era no Chile quando foi dado o golpe de Pinochet e problemas muito mais complexos. Quando a promessa de dividir o bolo não for cumprida (e tenho zero dúvida de que não será, dada a história do Brasil), o que acontecerá? O “ Gigante Adormecido” finalmente vai acordar? Nossos filhos e netos é que vão pagar este pato. Infelizmente.
