Composição: um texto sobre esse momento

A sala, a cozinha, o banheiro e o corredor central, escuros. Uma única luz acesa no apartamento vinha do quarto dos meninos. Olhando de longe, a iluminação da porta entreaberta formava um triângulo no chão de cerâmica. De lá, um som de cordas de violão saía e ia se afinando até parar na nota mi. Uma voz baixinha e rouca, falando para si mesma, disse: “pronto”.

Uma primeira palhetada nas cordas do instrumento fez o som de nylon tomar conta de todo o cômodo. A água no copo parecia dançar ao vibrar com as ondas sonoras que pairavam no ar.

Uma frase chegara à ponta da língua, ainda meio perdida, sem compromisso de se tornar uma canção. “Quem dança o ritmo do mundo”, cantou, em uma melodia que, quem escuta as músicas de Gonzagão, logo compreenderia que nascia ali um baião.

Pensou pouco e logo emendou outra frase: “quem balança no trem”. Ali já sabia que seria uma música, ou melhor, um perfil do trabalhador brasileiro. Se reconhecera nas duas frases pois, no mesmo dia pela manhã, havia chacoalhado dentro de um vagão do metrô.

Os acordes ainda não se encaixavam na sonoridade da melodia, mesmo assim insistia em agarrar as notas que saltavam de sua garganta.

Mais duas, três, quatro frases surgiram. Finalmente os acordes entraram em sintonia e uma canção, dali do quarto com a luz acesa, fugia. Quem enviara essa inspiração? Não sabia, mas repetia, repetia e repetia até fixar em sua memória a mais nova composição.

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