Sono

A princesa dorme de um jeito nunca antes visto no reino. Um repouso pesado, com uma respiração tranquila. Ela dorme o sono de mil ferreiros que passaram despertos o período inteiro das monções, forjando espadas da liga mais rija e ordinária que se tem notícia.

Dorme, pois vida de princesa não é como a de ferreiro. Não há espadas a se trabalhar. Não há trabalho. Não há nada. Na falta do que fazer, ela dorme.

A princesa jaz impassível e distante do motor da vida. Do lado de fora da torre, o mundo não para. Já a princesa não sente o movimento do mundo. Mesmo se estivesse acordada, não ligaria pra ele. Se o mundo insistisse em demovê-la do sono, ela o rechaçaria dando um largo o demorado bocejo. E, caso acordasse, o mundo e todo o seu movimento não a ganhariam. Certamente ela iria preferir continuar na cama, lendo um livro, com a cortina fechada.

Num primeiro momento, o estado súbito de letargia da princesa preocupou a todos. Feiticeiros, bruxas, druidas, bardos, advogados e celebridades sentaram próximos ao seu leito, em busca de uma resposta. Dois dias depois, ninguém mais deu a mínima. Dormindo, a princesa deixou de ser princesa e começou a ser esquecida.

Ao mesmo tempo, a princesa deslembrava do mundo. Dormindo, ela esquecia de tudo e de todos de forma mais eficiente. Esquecia os seus pais, esquecia o castelo, esquecia os advogados, esquecia as celebridades e esquecia até do nada que ocupava seus dias e suas noites enquanto ela estava acordada. Com o consciente desabitado, só restava à princesa recorrer aos sonhos.

No sonho da princesa não tem príncipe. Já tinha lido antes sobre a vida dos príncipes, como seus beijos são capazes de interromper o sono de princesas, e não gostou nada nada. Nunca viu um príncipe. Nem beijo de príncipe. Pra falar a verdade, nem beijo nenhum. Sempre achou príncipes desinteressantes. Até mais do que sapos. Sapos ao menos não clareavam os dentes nem lambuzavam os cabelos com gel.

Antes de dormir, a princesa tinha lido que morrer dormindo é considerada a mais serena das mortes. Pensou que talvez fosse mais vantajosa do que ser incinerada por um dragão ou sequestrada, torturada e estuprada por exércitos de outros reinos. Quis então fechar os olhos e se entregar ao ócio onírico pra esquecer que estava viva, que era princesa e que príncipes de madeixas lambidas existiam. E assim o fez.