Sergio Larrain: o que é Fotografia?

Fotógrafo da Magnum falecido em 2012, o chileno Sergio Larrain escreveu uma carta quando seu sobrinho começou a se interessar por fotografia. Deparei-me com esse texto no (muito bom) blog da Rafaela, que me redirecionou para o original chileno.

Nesses últimos três anos de viagens, eu consegui separar bem o que fazia para o trabalho e o que reservava para mim. Em contrapartida, a quantidade de textos sugerindo que a fotografia é uma corrida, onde só ganha medalhas quem chega em primeiro lugar, cresceu absurdamente.

Minha relação com equipamento, lentes e a própria fotografia mudou bastante, acredito que para melhor. Muito do que penso atualmente está descrito nessa carta, espero que também lhe seja útil:

“Quarta-feira. Em primeiro lugar você tem que ter uma câmera que você gosta, a sua preferida, porque é sobre se sentir confortável com o que você tem em suas mãos: o equipamento é fundamental para qualquer profissão, e que seja o mínimo, o estritamente necessário e nada mais.

Em segundo lugar, ter um ampliador a sua escolha, o melhor e mais simples possível ( em 35 mm. o menor fabricado pela LEITZ é o melhor e vai durar toda a sua vida).

O jogo é partir para aventura, como um marinheiro: soltar as velas.

Ir para Valparaiso ou Chiloé, estar na rua durante todo o dia, passear e passear em lugares desconhecidos, sentar-se debaixo de uma árvore quando você está cansado, comprar uma banana ou um pouco de pão e entrar no primeiro trem, ir para onde quiser, e olhar, desenhar também, e olhar.

Afaste-se das coisas que você sabe, entre no mundo do desconhecido, deixe-se levar pelo seu gosto, de um lugar para outro, por onde você for vá clicando.

De pouco a pouco vai encontrar coisas e ver imagens, as tomar como aparições.

Assim que você voltar para casa, revela, copia e começa a olhar para o que você pescou, todos os peixes, e cole tudo com fita adesiva na parede, revele-as no tamanho de folhas de cartão postal e olhe-as. Depois começa a brincar com o L, a buscar cortes, para enquadrar, e vai aprendendo composição, geometria. Vai enquadrando perfeitamente com o L e amplia o que tem enquadrado e deixe na parede.

Assim vai olhando, para ver.

Quando você se certificar de que uma imagem é ruim, jogue-a fora. As melhores coloca mais alto na parede, ao final guarda as boas e nada mais (guardar o medíocre te deixa preso no medíocre). No topo apenas o que se salva, joga todo o resto fora porque carregamos no psicológico tudo aquilo que retemos.

Em seguida, faz algum exercício, se entretenha com outras coisas e não se preocupe mais. Comece a olhar para o trabalho de outros fotógrafos e busca o lado bom de tudo o que você encontrar: livros, revistas, etc., e obtenha o melhor, e se você puder cortar, fica com o bom e vai pregando na parede ao lado da sua, e se você não puder cortar, abre o livro ou revista nas páginas das coisas boas e deixe-os abertos em exposição. Deixe assim por semanas, meses, o tempo necessário, demoramos muito para ver, mas aos poucos você vai se entregar ao segredo e você vai ver o que é bom e a profundidade de cada coisa.

Vá em frente com a sua vida, desenhe um pouco, dê um passeio, mas não se force a tirar fotografias: isso mata a poesia, a vida em si fica doente. Seria como forçar o amor ou a amizade: você não pode fazer isso. Quando você nasce de novo, você pode partir em outra viagem, outra vagabundeação: a Puerto Aguirre, pode descer a Baker a cavalo para as geleiras de Aysén; Valparaiso é sempre maravilhosa, é perder-se na magia, perca alguns dias girando ao redor das colinas e ruas e durma em um saco de dormir em algum lugar no meio da noite,tão entranhado na realidade, como nadar debaixo d’água, que nada te distraia, nada convencional.

Deixe seus pés guiá-lo lentamente, como se você estivesse curado pelo gosto de olhar, cantarolando, e o que for aparecendo vai fotografando com mais cuidado, e você vai aprender sobre composição e enquadramento, você vai fazê-lo com a sua câmera, e, portanto, sua cesta vai encher com os peixes, e você vai voltar para casa.

Aprenda foco, diafragma, primeiro plano, saturação, velocidade, etc., aprende a brincar com a máquina e suas possibilidades, e vai coletando poesia (sua e dos outros), leva tudo de bom que encontrar, dos outros também. Faz uma coleção das melhores coisas, como um pequeno museu em uma pasta.

Siga o que você gosta e nada mais. Não acredite em nada mais do que seu gosto, você é a vida e a vida é a que se escolhe. O que você não gostar, não veja, não funciona. Você é o único critério, mas observa o dos outros. Vai aprendendo, quando você tiver uma foto realmente boa, a amplie, faz uma pequena exposição ou um livro (…). Fazer uma exposição é dar algo, como dar de comer, é bom para os demais que lhes seja mostrado algo feito com trabalho e gosto. Não é para se gabar, é bom para você, é bom para todos e isso é bom para você, porque lhe dá feedback.Bom, isso é o suficiente para começar. É sobre vaguear, sentando-se sob uma árvore em qualquer lugar. É vagar sozinho pelo universo. Tens que começar a olhar de novo, o mundo convencional coloca um véu sobre os seus olhos, tens que tirá-lo durante o período da fotografia”.

Faça um favor para você cada vez que um fotógrafo de casamento se comparar a Rembrandt ou Caravaggio, cada vez que Fotografia se confundir com videozinhos de review de lentes por fotógrafos sem porfólio e assunto, cada vez que alguém se intitular “o melhor do mundo”, toda vez que textinhos idiotas estejam fazendo o trabalho que imagens deveriam fazer:

Releia isso sempre.