Emprego, Empreendedorismo e Universidade

Turma de Ciências da Computação, 1985

Esta foto foi tirada no final do ano de 1985. Os formandos já haviam estagiado durante dois e até três anos e todos tinham emprego garantido e uma carreira promissora pela frente.

Avancemos para 2016. Alguns destes profissionais estão desempregados, amargando uma situação inédita para eles na carreira de mais de 30 anos. Alguns também tem experimentado outra situação inédita: a rotatividade, com consequente perda salarial e de qualidade de trabalho.

Este cenário negativo também é experimentado pelos recém formados, com um agravante: a carreira futura que se desenha para eles contém uma grande dose de incerteza e risco.

A comparação 1985 x 2016 só pode ser feita observando alguns pontos muito especificos, já que o mundo está ampla e profundamente diferente. Vou analisar tres pontos: empregos em Computação, o Empreendedorismo e o papel da Universidade no Empreendedorismo.

Nos anos 80 ainda viviamos a reserva de mercado, que deu origem a pelo menos duas industrias locais: a dos computadores e a dos equipamentos de telecomunicações. Os estágios e empregos dos formandos de 1985 eram em empresas como Itautec, Digirede, Elebra, Promon, CPqD, IBM etc. Poucos destes formandos optaram pela carreira academica. 30 anos depois, as empresas nacionais citadas foram fechadas ou tiveram as equipes de P&D radicalmente reduzidas, enquanto os empregos nas empresas multinacionais perderam qualidade e estabilidade. Descrevendo de forma um pouco mais dramática: milhares de empregos em engenharia foram eliminados, centenas de equipes de engenharia completas, produtivas e competitivas foram desmontadas e empresas fecharam. Em 2016 os empregos de melhor qualidade para os formandos estão em empresas como Movile, CI&T, Matera, Dextra, Icaro, Sensedia e outras, criadas por colegas de faculdade que decidiram empreender, alem dos institutos de P&D como CPqD, Eldorado etc. Todas estas empresas e centros de pesquisa são fortes concorrentes no raking de melhores empresas para se trabalhar. Nas multinacionais as oportunidades de engenharia foram praticamente eliminadas, restando principalmente os empregos em marketing, vendas e serviços técnicos.

Vemos que neste periodo o Empreendedorismo ocupou o papel que a reserva de mercado em informatica exercia na criação de empregos de engenharia. Na minha amostragem as empresas criadas pelos ex-alunos da Unicamp nos anos 70, 80 e 90 foram frutos de escolha pessoal dos empreendedores, que num misto de teimosia, sonho e insensatez diante dos protestos familiares, arriscaram uma carreira promissora e segura para perseguir uma visão que ninguém mais compartilhava. Estes heróis, que na época eram chamados de loucos pelas costas, tiveram pouquissimo apoio externo que seja merecedor de lembrança. O curso de empreendedorismo na graduação, oferecido pelo Professor Vasco no Instituto de Economia, o Softex Campinas, com sua incubadora e serviços aos empreendedores e a incubadora da Prefeitura de Campinas eram as únicas ofertas consistentes de apoio ao empreendedorismo em TI no Ecossistema Campinas/Unicamp. A partir dos anos 90, o apoio ao empreendedorismo começa a se estruturar, levando a transformação do Edistec em Agencia Inova Unicamp, a criação da Incubadora da Unicamp (InCamp), à organização do grupo Unicamp Ventures, a criação do consórcio ActMinds de exportação de software. Em seguida vemos a criação das primeiras empresas de investimentos em startups, como a Inova Ventures Participações (IVP). As empresas filhas da Unicamp ultrapassam a barreira de R$1bi de faturamento anual coletivo. Mais recentemente vemos iniciativas de apoio ao empreendedorismo muito mais sofisticadas e organizadas, como a legislação da Prefeitura de Campinas para apoio a startups, a criação da Associação Campinas Startups (ACS), que foi a primeira do tipo no Brasil e a criação de duas aceleradoras locais. Chegamos a 2016 com o ecossistema de empreendedorismo Campinas/Unicamp consolidado, reconhecido e em pleno funcionamento.

No cenário atual, o papel das Universidades, tendo a Unicamp como uma das líderes, está profundamente ligado ao empreendedorismo em duas pontas: academica, na formação de empreendedores e empregados e na pesquisa/inovação tecnologica. Por outro lado, o empreendedorismo brasileiro ainda não contribui financeiramente de forma significativa para o financiamento das atividades das universidades. Assistimos neste momento a criação dos primeiros fundos patrimoniais do tipo endowment, inspirados nos modelos americanos. A interação entre empreendedorismo universitário e os fundos endowment é reconhecido e documentado nos EUA, sendo a base para a funcionamento da forte industria americana de Venture Capital, que viabilizou as novas multinacionais de tecnologia.

Vivemos um momento único, na posição privilegiada de protagonistas na estruturação de novos mecanismos de criação e empresas e empregos, com tecnologia inovadora e explorando modelos de negócios ainda a serem concebidos.

Campinas, 15 de Outubro de 2016