Eu Vi O Brasil Morrer Ainda Há Pouco

Eu vi a fuga em massa dos professores antigos do colégio estadual onde fiz meu ginásio, apenas com uma patada política, em questão de meses.
Eu vi o subsolo do hospital onde fiz residência transformado em um bunker pela máfia das funerárias. Meses depois, pegaram o “anjo da morte”, um técnico educadíssimo que matou dezenas, incólume, protegido pelo desconhecimento que os gestores “têm” do que acontece sob suas barbas.
Eu vi hospitais terceirizados a “homens de preto” armados, que “resgataram” um tomógrafo de helicóptero, a partir do telhado, com transmissão ao vivo pela tevê.
Eu conheci um diretor de hospital fuzilado a poucas quadras do nosocômio que dirigia, a mando da mesma máfia, em conluio com a máfia da distribuição de medicamentos. Era senso comum, à época, não sou eu que estou dizendo.
Eu ouvi um chefe falar que o sistema de ar condicionado de um grande hospital não seria totalmente limpo, após a descoberta de uma grave contaminação, porque “a instituição não pode parar”. Eu vi criança morrer porque o centro cirúrgico tinha dono, porque hospital não tinha centro cirúrgico, porque a cidade não tinha hospital.
Eu conheci quem roubasse insumos essenciais à vida de outrem, a farra das próteses e leitos de idosos no Brasil inteiro, os cargos comissionados a cavalo de contracheques de servidores concursados, a orgia das reformas em hospitais e clínicas.
Eu vi as crianças aguardando triagem à porta do hospital sem porta no frio da madrugada. Eu vi crianças sem diagnóstico após tantas consultas, morrendo de câncer porque esta é uma doença que em criança ninguém reparou. Eu vi gente ser contra tratar crianças com câncer perto de casa.
Mas eu vi as crianças brincando no mais belo e significativo sítio histórico aberto à visitação pública no Brasil: A Quinta da Boa Vista, com seu lago, seus parques, seu zoo e seu incrível museu-palácio, síntese da Monarquia. Lá meus filhos tocaram o Bendegó, espiaram as múmias, posaram com o maior Dino que temos – eles e todos os cariocas, inclusive os mais pobres. Dino que tínhamos, não temos mais.






Fotos do autor.
O âncora da BoboNews pergunta “o que foi que se perdeu?” – como um autômato, assumindo em uma frase toda nossa ignorância enquanto nação. Hoje morreu o coração da ciência brasileira, da história da Monarquia e do País, da história das nossas vidas.
Lá brinquei nas bicicletas com meus avós Keka e Chiquinho e meus filhos Lucas e Pedro Bach Bach, em uma inesquecível tarde em 2003. Depois vezes sem conta com o Thomas LBach e a Monica Lankszner, no Zoo e no Museu, papos infinitos com dona Nylce Godinho, frequentadora desde criancinha.
Sempre acabávamos no Museu Nacional, acolhidos por suas grossas paredes ancestrais, vencidos por sua grandeza, por sua imensa e imortal beleza.




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