Sobre animais e humanos
Que o planeta está sendo lentamente destruído pelo ser humano não resta dúvida, falta saber qual a velocidade exata do processo e se ele é ou não reversível.
Oceanos e mananciais poluídos, efeito estufa, desmatamento e extinção de espécies ocupam as notícias diariamente, misturando a realidade com os piores prognósticos da ficção científica.
Sendo assim, fico impressionado com aqueles que se colocam peremptoriamente contra a existência de zoológicos e aquários, como se todos fossem ineficazes, desrespeitosos para com os animais, caça-níqueis e engana-trouxas a repetir os erros do passado ou do presente.
Em primeiro lugar, há generalização desnecessária sobre a incapacidade do ser humano em intervir beneficamente em habitats naturais. Em locais como as Galés (Maragogi, AL) e o Parque Marinho Recife de Fora (Porto Seguro, BA), o turismo emprega, conscientiza e dá lucros além dos financeiros para as comunidades envolvidas, por entender que “sustentável” é, principalmente, o que leva em consideração o ser humano. Já em áreas menos visitadas, abundam a pesca e a coleta (de corais e outros animais) predatórias.
Em segundo lugar, há generalização burra quanto à incapacidade de criarmos habitats artificiais aceitáveis. Custo a crer que seja melhor para os peixes e outros animais cuidadosamente selecionados para integrar o time do controvertido AquaRio, por exemplo, habitar as águas poluídas da Guanabara ou do restante dos nossos mares. Ali, em meio a atividades de pesquisa sérias, espécies em perigo tem uma chance de sobrevivência, e nossos filhos, a oportunidade de “conhecer para aprender a preservar”.
O mesmo se aplica ao sempre combalido RioZoo, entidade que visito há quase duas décadas, que, mesmo em face aos abusos da falta crônica de verbas, é exemplar em sua beleza, limpeza e cuidado com os animais. Duvida? Visite o berçário do zoológico, sempre ativo com a chegada de novos bebês.
Para finalizar, consigo entender quão escandalosa é a indústria da carne, com seus maus tratos indizíveis aos animais ditos de abate. Mas não entendo, à luz do conceito de “lugar de fala”, que direito temos de reclamar contra o “aprisionamento” de animais, quando não sabemos com certeza o quanto isto os afeta conscientemente. Aliás, não temos ainda certeza de quantas ou quais espécies teriam consciência – perguntamo-nos mesmo quantos de nós humanos a possuímos de maneira integral, ou quando a temos plenamente desenvolvida, como nos mostram as infindáveis discussões sobre a idade ideal para a maioridade penal.
Importante é que a sociedade evoluiu, e começa a prestar atenção a esses assuntos delicados, a respeito dos quais apenas começamos a (nos) entender. Tomara que dê tempo de fazermos melhor que no passado, trazendo a nossas ações cotidianas mais respeito à vida como um todo.
