“Onde você está?

Quando alunos deveriam praticar aulas de Educação Física nas escolas?

Ao longo da história, a disciplina da educação física passou por várias transformações, finalidades e objetivos distintos. Os gregos na antiguidade tinham a preocupação do desenvolvimento físico e moral, mais do que isso ter um corpo bem definido significava assemelhar-se com Deuses, seres perfeitos na sua concepção. Naquela época o esporte era uma prática exclusiva dos homens as mulheres nem se quer poderiam assistir aos jogos. Os romanos, muito tempo depois também aderiram a prática tendo como foco o físico de um modelo, o corpo bem definido, dignidade e poder, afirma a pesquisadora de Arte Sônia Chamon. Portanto o movimento é parte da cultura humana, com arte de se expressar através de seus sentimentos seja ela na dança, nos rituais místicos e no esporte de maneira geral.

Modalidades praticadas na Grécia Antiga (Foto: Google)

A educação física é lei nas escolas públicas e particulares do Brasil. Desde 1996, faz parte do componente curricular e da proposta pedagógica das escolas. Luís Seabra, professor de educação física da Unicamp e membro do Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação Física Inclusiva da Universidade Federal Mato Grosso do Sul, explica que cabe ao profissional, como também em outras disciplinas, incentivar o aluno a ter suas próprias opiniões em relação ao esporte, sob um olhar crítico e opinativo e não ser somente um consumidor passivo; respeitar suas diferenças culturais e proporcionar experiências, além de ser capaz de entender os princípios básicos sobre a realização de exercícios físicos.

É o que reclamam alguns alunos do ensino médio, da Escola Estadual Professor Carlos Tancler, no Jardim Morumbi, em Indaiatuba. “Quando o professor chega na sala de aula, ele nem explica a matéria, porque todos saem para a quadra, já virou rotina” diz a estudante Laura Neris Damota, 16 anos do 2° ano. Mateus de Jesus, 16 anos, do 1° ano acredita que “falta contribuição, conscientização de nós alunos, para que a aula seja melhor aproveitada”. “Coitado, o cara estudou quatro anos, para ninguém entender a matéria dele” completou. Perguntados sobre o que deveria mudar nas aulas, o professor é sempre o alvo dos estudantes. Eles dizem não compreenderem o conceito das aulas, porém acreditam que a disciplina é capaz de ajudar no seu crescimento pessoal. Nicole Corrêa Bueno, de 16 anos, também do 1° ano relata que alguns dos alunos da sala estão participando de um campeonato regional em Sorocaba no qual eles não estão, e por esse motivo o professor está acompanhando fora da cidade. Enquanto isso fica a critério dos alunos fazerem o que quiserem com jogos de tabuleiro e outras atividades que quase ninguém participa, explicou.

“A Olimpíada é um evento grandioso que desperta curiosidade nas pessoas principalmente nas crianças qual vai ser o legado desta competição no Brasil”

Em ano de Jogos Olímpicos, em que o Brasil será sede, a cobrança em cima desse profissional acaba sendo maior, pelo fato de haver uma carência de atletas brasileiros de alto rendimento disputando medalhas. O professor Luís Seabra aponta as seguintes questões:

  • A escola é um local adequado para descoberta de talentos esportivos?
  • Pensemos na infraestrutura que escola pública tem hoje no que se refere a materiais esportivos, espaço físico para a prática esportiva.
  • O que fazer com alunos menos habilidosos que tem pouca experiência motora?
  • Somente uma ou duas aulas semanais, de 50 minutos, seriam suficientes para atingir esse objetivo?

A grande questão é despertar o interesse dos alunos pelas práticas esportivas, com isso:

  • Criar turmas de treinamento em período contrário as aulas curriculares;
  • Disseminar festivais esportivos e competições escolares em que os alunos já federados não possam participar e assim incentivar novos talentos.

Segundo ele, a carência de atletas de alto rendimento é fruto de uma política do esporte pouco eficiente, mal planejada, com pouco ou nenhum incentivo a massificação do esporte. Falta de apoio e capacitação de professores; falta de incentivo e condições adequadas aos atletas iniciantes ou em fase de desenvolvimento e aos clubes esportivos que trabalham com diferentes modalidades esportivas. Nestas condições os professores são “reféns” de um cronograma do Governo Estadual repassado para todas as escolas públicas seguirem composto por: atividades práticas, escrita, participação além de trabalhos de pesquisa.

A escola Helena de Campos Camargo vetou a decisão de implementar aulas em período integral, Marcelo Campos Bueno, é professor de educação física do ensino fundamental, e é contra porquê considera errado fazer isso sem levar em conta essas questões, “o aluno vem para escola, das 7h à 12h para as aulas curriculares e depois do intervalo, até ás 17h para atividades recreativas passa o dia inteiro fazendo o quê? Não tem vestiários adequados e nem estrutura suficiente para comportar tantos alunos. Muitos acabam até “matando aula”, conta.

Este novo modelo de ensino em que varia aulas teóricas com aulas práticas confundiu os alunos, que viam a disciplina como ir para a quadra para fazer o que quiser, muitos se recusam a fazer e se surpreende quanto vão mal na matéria, explica Marcelo. “A minha aula é 50 minutos, os últimos 15 são para descer para a quadra, pois estão todos ansiosos para jogar bola, correr e fazer o que quiser. Também é uma maneira de pararem de fazer bagunça”, ironiza.

O salário do professor e as condições de trabalho é um dos fatores que muitas vezes diminui a qualidade da disciplina.

‘’O professor vai dar aula desmotivado’’ Marcelo Campos

A bonificação surgiu como alternativa do Governo Federal para que o professor ganhe por produtividade, mas relacionar o desempenho do aluno com as aulas dos professores tem gerado polemica, principalmente na questão do ensino e aprendizagem.

Atualmente o Piso Salarial Nacional 2016 é R$ 2.135,64 um reajuste de quase 12% em relação ao ano passado.

Marcelo Campos, conta que o salário implica diretamente no ensino da disciplina. Ele diz que greves recorrentes, não ajudam em nada no desenvolvimento da aula, muito pelo contrário: — alunos sem aulas e professores mal remunerados deixam os estudantes fazerem o que querem como uma forma de protesto, além disso, passam de ano sem entenderem as matérias, a famosa “progressão continuada”, atrapalha o desempenho em sala de aula, não só de educação física. “Temos o maior sindicato de professores da América Latina, o APEOESP (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo) e não conseguiram resolver nosso problema de melhoria do salário”.

João Panzetti, fez bacharelado e se formou em educação física em 2008, Personal Trainer, hoje é dono de uma academia em Indaiatuba, treina pessoas que buscam bem-estar e qualidade de vida através de treinamentos funcionais. Conta que já na faculdade, os alunos tem a propensão de seguirem carreiras em academias, hotéis, transatlânticos, fazendo atividades recreativas. Isso deve ao fato de que o professor da rede pública, está cada vez menos valorizado e os que se formão buscam outras alternativas para fazerem o que gosta e ser bem remunerados.

Ele escolheu seguir neste segmento porque segundo ele “o trabalho de um professor em sala de aula é regrado com o material limitado que é passado a ele, sem contar que não dá para realizar um trabalho específico em cada aluno”. A profissão de professor desde a época da faculdade já era um trabalho arriscado financeiramente. Diferente do que ser personal trainer, quando você trabalha com um aluno e é bem pago pelo serviço prestado”.

Professor acompanha a rotina de treinos de seu aluno (Foto: Google)

Por Renê de Araújo

Créditos:

Editores/Repórteres/Fotojornalistas:

Coordenadores do curso: Fernando Cesarotti, Pedro Courbassier, Monica, Renata Becate e Sônia Chamon
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